A importância do arroz no prato brasileiro

arroz

A pesquisadora Romilda de Souza Lima fala sobre a importância do arroz no prato dos brasileiros e o que significaria fazer uma troca pelo macarrão, simbolicamente.

Saiba mais sobre os motivos do aumento do preço do arroz
Transcrição de entrevista concedida pela Profª. Drª. Romilda de Souza Lima, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná ao Mulheres de Luta.

O arroz é um alimento do cotidiano de boa parte dos brasileiros, mas é interessante destacar que ele não ocupa um lugar tão importante, desde sempre, aqui no Brasil.

A mandioca e, sobretudo, a farinha de mandioca foi durante muito tempo a combinação mais aceita com o feijão. Seja só jogado sobre o feijão cozido, como tutu de feijão ou feijão tropeiro. Farinha de mandioca com carne seca, pão de farinha de mandioca, em alguns lugares.

Em outros, como Minas Gerais, por exemplo, que preferia-se a farinha de milho, usado no angu, nas broas. Numa época em que o arroz ocupava o final da fila na lista de alimentos de consumo frequente.

Câmara Cascudo, em História da Alimentação no Brasil, nos informa que o arroz, durante muito tempo, não foi considerado indispensável para os trabalhadores. E que era até mais comum na mesa de pessoas de posses. Não era um alimento popular.

Ele aponta a chegada do arroz ao Brasil entre os anos de 1570 e 1587, que os índios tupis chamavam de milho d’água. Segundo ainda Câmara Cascudo, foi a partir do século 18 que o arroz passou a ser amplamente difundido e divulgado, iniciando-se assim o incentivo ao cultivo em maior escala.

Foi quando em 1781, D. Maria I, proibiu a importação do arroz para valorizar a produção nacional, considerada suficiente para atender o consumo interno.

Então, os brasileiros foram adotando aos poucos o arroz em seu cotidiano, o hábito de consumi-lo. Hoje o arroz é um importante alimento cultural no Brasil, sobretudo, quando combinado com o feijão.

Como nos diz Carlos Dória, a combinação arroz com feijão é o prato mais, tipicamente, nacional. Esse aspecto é muito importante, porque antes de pensar no valor nutritivo de um alimento, pelo menos para a maioria dos brasileiros e brasileiras, a escolha se dá pelo hábito de consumo que tem raízes na família, no que comíamos desde a infância.

Tanto é que o impacto do aumento no preço do arroz tem movimentado a sociedade e a vida das famílias. Se o sentido cultural do arroz não ocupasse, hoje, um lugar especial, a alta do preço não teria tanta importância.

E, claro, tem um valor nutritivo. Nutricionistas já apontam há muito tempo a importância da combinação do arroz e feijão. Principalmente se for arroz integral.

O arroz, assim como o feijão, o macarrão, a gordura de porco, a mandioca e a batata doce, são consideradas, culturalmente, como comida forte ou comida grosseira.

Comida forte ou grosseira é aquela que os trabalhadores braçais da roça ou da cidade, da construção civil, por exemplo, consideram como comida que dá sustentação para aguentar um dia de trabalho, a sustância. Pensemos nas marmitas dos trabalhadores que durante anos e anos vem sendo assim.

Nessas pesquisas em Minas Gerais e Paraná, vi que a mandioca é consumida, inclusive, com arroz e feijão. Não substitui o arroz no hábito alimentar, é consumida junto.

A lógica de consumo para as famílias trabalhadoras é, muitas vezes, diferente da lógica nutricional. É o determinante cultural, o peso cultural que se sobrepõe ao nutricional.

As últimas pesquisas de orçamentos familiares, as POFs de 2008 a 2009, e 2017 a 2018, apontam o aumento de alimentos ultraprocessados. Na POF de 2008 a 2009, a redução no consumo de arroz foi identificada nos extratos mais altos de renda, ou seja, nas famílias mais ricas e que detém uma renda maior.

Nas famílias de rendas mais baixas, os alimentos mais consumidos continuam sendo o café, arroz e feijão. E, segundo a última POF, a média de consumo diário per capita de arroz, no Brasil, é de 131,4g ao dia, e a de feijão 141g ao dia.

O IBGE lançará, em breve, os resultados da análise de segurança alimentar no Brasil, realizada a partir da aplicação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar – EBIA, que irão compor os resultados da POF 2017/2018.

A ONU tem alertado que o Brasil corre grande risco de voltar a compor o mapa da fome, elaborado pela FAO e do qual o Brasil saiu em 2014. Entram para o mapa da fome os países que possuem mais de 5% de sua população em extrema pobreza e em insegurança alimentar.

Um estudo do Banco Mundial de 2019 aponta que 14,7 milhões de pessoas no Brasil deverão passar para a extrema pobreza até o final de 2020. Ou seja, aproximadamente 7% da população. Isso tem várias razões de ordem socioeconômicas do país, agravada pela pandemia do Coronavírus. Essa informação é do economista Daniel Balaban, chefe do escritório brasileiro do Programa Mundial de Alimentos da ONU, em recente entrevista à imprensa.

É sempre importante lembrar que o Brasil possuía o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – CONSEA, que assessorava diretamente a presidência da república nas políticas de combate a fome e insegurança alimentar. Foi extinto pelo atual Presidente da República no início de 2019, como uma das principais medidas após assumir o comando do país.

A sugestão dada por um empresário brasileiro, do ramo de supermercados, para que os brasileiros trocassem o arroz por macarrão enquanto a crise do arroz durar não é tão simples de se resolver, sobretudo, do ponto de vista simbólico e cultural.

Para a população de renda mais alta que, segundo a última POF, é a que vem reduzindo o consumo de arroz, isso pode até não representar um grande problema. Talvez, também, não seja para as pessoas de origem italiana no Brasil, habituadas ao consumo quase diário de massas.

Para a população de baixa renda, que tem no arroz e feijão a comida básica do cotidiano, passar a almoçar macarrão e feijão todos os dias, exigirá uma nova adaptação do paladar. Porque se da combinação arroz e feijão as pessoas parecem não enjoar, podem enjoar, rapidamente, da combinação macarrão e feijao. Ou nem mesmo aprová-la.

E há o risco de reduzir o consumo de feijão e consumir apenas a macarronada com algum molho de tomate.

Paladar não é algo que pode ser imposto, muito menos de uma hora para outra. É um aprendizado social, envolve uma série de aspectos que estão relacionados a comida afetiva, inclusive.

O arroz para ocupar o espaço que tem hoje levou anos e anos. Além disso, é importante lembrar do quanto o arroz permite combinações saborosas e econômicas, que é possível usar as sobras, por exemplo.

Essas possibilidades do uso do arroz, hoje, são muito importantes para boa parte dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras com dificuldades financeiras, que estão vendo seu poder de compra reduzir.

A pandemia de Covid19 só agravou a situação.