Arroz, o queridinho do prato brasileiro

O arroz é tão presente na vida do brasileiro, que a combinação “arroz com feijão” já se tornou expressão cotidiana para indicar o que é de base, o sustento e a boa liga. 

A origem desse alimento pode ser traçada até antes da chegada dos portugueses ao Brasil, e direcionada a países os quais muitas pessoas não imaginavam relação direta.

“Uma vez ouvi um ativista e pesquisador de Guiné Bissau, chamado Miguel de Barros, falando sobre a cultura do arroz em Bissau. Comecei a refletir sobre os caminhos desse arroz e, também, a partir da ideia de que o arroz é muito importante nas culturas do sul dos Estados Unidos, está presente em muitas preparações.

A partir daí comecei a pensar que o nosso arroz, ainda que venha, também, dos portugueses, chega em Portugal via África. Uma coisa que não é muito dita, é a importância da ocupação negra a partir dos mouros da Península Ibérica, em Portugal e Espanha.

Muito daquilo que vem de Portugal e Espanha é um processo que vai de África para Portugal e depois para o Brasil. Mas só recebemos como sendo europeu” ─ Afirma a pesquisadora Lourence Cristine.

Culturalmente falando, ele se tornou base da nossa alimentação, fazendo o papel de protagonista nas refeições diárias. Num país onde temos aproximadamente 52,5 milhões de pessoas na pobreza, necessitamos de uma combinação de alimentos de baixo custo que sirva de base para sustentar os trabalhadores que fazem grande esforço. 

O aumento repentino do preço do arroz influencia a todos, mas principalmente os que sentem pesar mais no bolso devido às suas condições financeiras mais instáveis. Podemos até ver num trecho do livro “Quarto de Despejo – O diário de Uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, como a variabilidade nos preços dos alimentos considerados padrões para a família brasileira afetam os mais pobres, os que dependem de cada refeição para sustentá-los na jornada dura de trabalho.

“…quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles. Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e o feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes…Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo.”

Segundo a economista Regiane Wochler, “em torno de 25% a 50% do orçamento dos pobres é destinado à alimentação” .

Poderíamos até pensar numa substituição para aliviar os custos desse alimento, assim como suprir nutricionalmente o papel do arroz, mas o buraco é mais embaixo. Tanto a mudança de paladar repentina, quanto a questão do hábito, são processos difíceis de se acostumar em uma nação que consome o mesmo cereal há tanto tempo.

“Não é simples trazer uma substituição, porque estamos falando de um ingrediente que faz parte da dieta básica brasileira há muito tempo, está enraizado no nosso hábito alimentar comer arroz com feijão. 

Além disso, é a combinação que garante uma segurança alimentar e nutricional para uma população que, se formos olhar para o macro do Brasil, temos mais de 10 bilhões de pessoas. Está aumentando. Não só voltamos para o mapa da fome, como estamos aumentando o número de pessoas que sofrem com a fome.” ─ Disse a pesquisadora Lourence Cristine Alves.

Durante a pandemia, pudemos acompanhar o aumento do preço desse alimento que compõe a mesa da maioria dos brasileiros todos os dias. Mudanças econômicas influenciadas pela pandemia tiveram grande participação na alteração do valor do arroz.

“Em janeiro de 2020, o preço da saca de arroz de 50kg (tipo 1) custava R$49,60, nesse caso, estamos falando do preço ao produtor. Em setembro de 2020, a mesma saca passou a valer R$103,38.” ─ Diz a Profª Drª Romilda de Souza

Com mais pessoas em casa, podemos contar com o crescimento das famílias que optam por refeições caseiras, e como o brasileiro tem o hábito diário de comer arroz com feijão, o consumo desse produto passou a crescer. Portanto, com a elevação da demanda, maiores são os preços estipulados pelo mercado.

É impossível não falar sobre os impactos sociais causados por esse ocorrido, ainda mais se tratando do período de instabilidade governamental que o Brasil tem enfrentado nos últimos tempos. Faz parte da atuação de um governo garantir que seus habitantes tenham segurança alimentar, e essa missão não tem sido cumprida, pois ainda há uma grande parcela da população que se encontra na pobreza, sem condições de manter as três principais refeições do dia.

“A pandemia mostrou de maneira clara, o quão desigual é o Brasil” ─ Ressaltou a economista Regiane Wochler

O alto custo do prato padrão do brasileiro, que é o arroz com feijão, é um reflexo de um cenário preocupante em que um dos produtos mais básicos para a dieta tradicional do povo, encontra-se inacessível para a grande parte da população que depende de cada centavo contado para sobreviver.

A preocupação não está na guarnição de arroz que acompanha um prato principal no restaurante, está na nossa cultura, nos que não podem usufruir do luxo de escolher outra opção no supermercado, está no prato berço do Brasil ser tirado dos brasileiros. 

A discussão completa sobre esse assunto, você pode acompanhar nos vídeos que preparamos em conjunto com essas mulheres, que trazem informações importantíssimas para o entendimento do que realmente está por trás de todos esses acontecimentos recentes.

Entrevistas em vídeo sobre o tema

O impacto da pandemia na alta do arroz

Regiane Wochler fala sobre como a pandemia significou necessariamente uma interrupção nas cadeias de distribuição de produtos, uma interrupção na rede de produção e isso, obviamente, teve um impacto de custos.

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