As mulheres na Revolução Francesa

Quando começou a Revolução Francesa, em 1789, as mulheres viviam em função dos afazeres domésticos e do cuidado com a família. O pensamento iluminista, no entanto, também despertou nelas o desejo de partilhar dos valores do movimento.

A liberdade, a igualdade e a fraternidade: todos substantivos do gênero feminino.

O paradoxo, no entanto, é que os líderes da Revolução, ao mesmo tempo que defendiam um modelo político moderno e democrático, em oposição ao Estado Absolutista, não evoluíram sua visão em relação à mulher.

Jean-Jacques Rousseau, um dos mais importantes filósofos da época, em seu livro Émile, atribui um papel fundamental às mulheres na família: de amamentar e educar seus filhos. Além disso, na mesma obra, o autor explicitamente desaconselha que elas se aventurem em posições ativas fora de casa.

A história demonstrou que estavam todos errados, afinal!

A Revolução Francesa foi um movimento de revolta política e social iniciado em 1789, na França. Entre suas causas estavam o endividamento da monarquia, seu insucesso administrativo e a desigualdade social entre a população de 25 milhões de habitantes.

Às vésperas da revolução, a sociedade francesa era governada pelo rei Luís XVI e se dividia em três grupos: o Primeiro Estado, representado pelo Alto Clero; o Segundo Estado, formado pelos nobres; e o Terceiro Estado, composto por industriais, burguesia e camponeses, que sustentava através do pagamento de impostos uma vida de luxo para a Coroa, o Clero e a Nobreza, enquanto muitos dos seus passavam fome. rf5

Pressionado pela situação econômica francesa, o rei convocou os Estados Gerais e os súditos puderam registrar suas reivindicações nos “cadernos de queixas”. Entre as mulheres, emanaram pedidos por mais educação, emprego, independência e autonomia. E, embora não fosse permitido a elas disputar os cargos eletivos, houve intensa mobilização feminina para a escolha dos deputados que definiriam os novos rumos da nação. Foram eleitos 1.139 homens, sendo 291 do clero, 270 da nobreza e 578 do Terceiro Estado.

Apesar de ter conquistado a maioria das cadeiras, o Terceiro Estado não detinha o poder decisório, porque o processo de votação era por Estado. Ou seja, Clero e Nobreza detinham 2 ⁄ 3 dos votos e, portanto, o poder de manter seus privilégios.

Para reverter a situação, o Terceiro Estado propôs que a eleição fosse individual: um homem, um voto. O rei declinou. Os deputados do Terceiro Estado, então, decidiram criar uma nova constituição para a França.

A monarquia tentou conter, à força, a realização da Constituinte. Porém, a população parisiense se rebelou e, no dia 14 de julho de 1789, houve a Queda da Bastilha, prisão-símbolo da opressão absolutista.

No mês seguinte, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada, reconhecendo o direito universal à liberdade, à propriedade e à igualdade perante à lei. A recém-promulgada constituição francesa, no entanto, era pouco inclusiva. Não contemplava as mulheres e estabelecia a comprovação de uma renda mínima para que os cidadãos homens pudessem votar. 

Neste período, conhecido como Monarquia Constitucional, a arena política foi dominada pelo embate entre os liberais da alta burguesia, conhecidos como Girondinos, que se posicionavam à direita na Assembleia, e os Jacobinos, grupo formado pela pequena burguesia e pelas massas populares, que ocupava à esquerda. Essa divisão deu origem ao que definimos hoje como direita e esquerda.

A Primeira República Francesa foi proclamada em 1792 sem que isso trouxesse avanços significativos em relação aos direitos políticos das mulheres. 

Em 1793, o rei Rei Luís XVI é guilhotinado, atitude que gera uma ação contrarrevolucionária das nações europeias temerosas do exemplo Francês.

Sob a guerra, a revolução se radicaliza, culminando com a ascensão dos jacobinos e de uma ditadura virtual imposta pelo Comitê de Salvação Pública. Milhares de pessoas foram mortas no período que ficou conhecido como Reino de Terror.

Em 1795, após a queda dos jacobinos, o Diretório assumiu o controle do Estado francês, onde se manteve até 1799, com a ascensão de Napoleão Bonaparte.

As mulheres participaram da Revolução Francesa de várias maneiras: protestaram contra a escassez de alimentos; marcharam contra o poder real; enfrentaram intermináveis filas de pão; confeccionaram ataduras para o esforço de guerra; arriscaram-se nos campos de batalha. Também escreveram todos os tipos de cartas e petições sobre políticas governamentais da época.

As mulheres da alta sociedade parisiense frequentemente agiam como salonnières, organizando recepções noturnas onde eram discutidas novas ideias sobre educação, classe e direitos individuais. Essas senhoras, embora não gozassem de direitos legais, exerciam uma significativa influência indireta no mundo da política e da diplomacia.

Uma das salonnières mais influentes da época foi Sophie de Condorcet. Ela trabalhou com seu marido, o Marquês de Condorcet, em um documento intitulado “Sobre a admissão das mulheres aos direitos civis”, que diz: “… os direitos dos homens resultam simplesmente do fato de serem seres racionais e sensíveis, suscetíveis de adquirir ideias de moralidade e de raciocinar sobre essas ideias. As mulheres que têm, então, as mesmas qualidades, têm necessariamente os mesmos direitos.”

Igualmente influente nos escalões superiores foi Germaine de Staël, mais conhecida como Madame de Staël. Filha do famoso ministro das finanças, Jacques Necker, desfrutava de um lugar privilegiado na sociedade e usou de sua posição para questionar a estrutura patriarcal vigente no século XVIII. Com apenas 22 anos publicou o livro: “Cartas sobre a obra e caráter de Jean-Jacques Rousseau”. Germaine de Staël – tem várias na pasta, dá para ver pelo nome (…)

Outra figura revolucionária foi Madame Roland. Muito astuta, levou seu marido ao primeiro plano da política francesa, ajudando-o a redigir projetos de lei e discursos parlamentares, e desempenhou um papel considerável dentro do Partido Girondino. Escreveu, na prisão, “Memórias para a minha filha” e “Últimos Pensamentos”. Antes de ser guilhotinada, ela teria exclamado a célebre frase: Ó Liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome.

Talvez a revolucionária mais intrigante seja Théroigne de Méricourt, uma próspera camponesa que participou da Tomada da Bastilha, da marcha de mulheres até o Palácio de Versailles para trazer para Paris « o padeiro, a padeira e o pequeno aprendiz », termos usados para se referir ao Rei Luís XVI, à Rainha Maria Antonieta e ao delfim, e da invasão do Palácio das Tulherias. Também arrancou aplausos por seus discursos no famoso Clube dos Cordeliers.

Outra feminista que se destacou na época por sua eloquencia foi Etta Palm d’Aelders, também conhecida como a Baronesa de Aelders. É dela o Discurso sobre a Injustiça das Leis em Favor dos Homens, às Despesas das Mulheres, proferido em 1790, na Convenção Nacional Francesa. Também foi uma das fundadoras da primeira organização exclusivamente feminina na história da França, a Sociedade Patriótica e de Caridade das Mulheres Amigas da Verdade.

A Sociedade das Cidadãs Republicanas Revolucionárias, fundada por Claire Lacombe e Pauline Léon, foi outra organização feminina da época. Congregando principalmente mulheres da classe trabalhadora, apresentava como objetivo principal defender a França e a revolução. Para isso, propunham que as mulheres se instruíssem politicamente, aprendendo a Constituição e as leis da república, além, é claro, de participarem dos assuntos cívicos.

À medida que a Revolução se tornou mais radical, a influência das salonnières foi reduzida e os clubes femininos proibidos de funcionar. Mesmo assim, houve uma série de manifestos em favor dos direitos das mulheres. A declaração mais ousada foi de Marie Gouze, que escreveu sob o pseudônimo de Olympe de Gouges. Aspirante a dramaturga, Olympe de Gouges publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, sua própria versão da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Começa assim: 

“Mães, filhas, irmãs, mulheres representantes da nação reivindicam constituir-se em uma assembleia nacional. Considerando que a ignorância, o menosprezo e a ofensa aos direitos da mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção no governo, resolvem expor em uma declaração solene, os direitos naturais, inalienáveis e sagrados da mulher. Assim, que esta declaração possa lembrar sempre, a todos os membros do corpo social seus direitos e seus deveres; que, para gozar de confiança, ao ser comparado com o fim de toda e qualquer instituição política, os atos de poder de homens e de mulheres devem ser inteiramente respeitados; e, que, para serem fundamentadas, doravante, em princípios simples e incontestáveis, as reivindicações das cidadãs devem sempre respeitar a constituição, os bons costumes e o bem estar geral. Em conseqüência, o sexo que é superior em beleza, como em coragem, em meio aos sofrimentos maternais, reconhece e declara, em presença, e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguintes direitos da mulher e da cidadã: 

Artigo 1º – A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções sociais só podem ser baseadas no interesse comum.”

Como muitas outras ativistas femininas importantes, Olympe de Gouges sofreu perseguição e, em 3 de novembro de 1793, foi enviada para a guilhotina por Robespierre. 

A Revolução Francesa marcou o início da Era contemporânea.

E o legado de Olympe de Gouges e de suas contemporâneas está presente na luta diária pela manutenção da liberdade, da igualdade e da fraternidade para todos os povos e seus cidadãos.