Caçadoras de borboletas – Literatura, substantivo feminino

“Você fabrica histórias o tempo inteiro e não se dá conta, a diferença é que o autor de ficção é feito um caçador de borboletas, ele fixa a história.”

Marina Colasanti

O processo de escrita é uma atividade particular, por isso não existe uma receita única que nos ensine como escrever.

Sendo assim, cada escritora tem seu próprio entendimento sobre o processo de escrita e suas próprias regras. 

Algumas são diurnas, gostam de escrever pela manhã e ceder à preguiça no período da tarde. Outras são noturnas.

As boêmias pegam seu bloco de notas, sentam-se para beber e observam a vida e o fluxo de pensamento. Algumas sentam-se todos os dias na frente do computador, haja ideia ou não.  

O interessante nesse processo é justamente perceber essas diferenças.

Quando Marina Colasanti nos diz que o escritor é um caçador de borboletas, ela evidencia a ponte que há dentro de cada escritora. Ela liga duas partes, uma parte que é criadora de histórias, e outra que é arquiteta das palavras. 

“Criar e narrar histórias requer a habilidade da imaginação. Escrever, contudo, requer outras habilidades que são adquiridas com a prática da escrita.”

No segundo episódio de “Literatura, Substantivo Feminino”, escritoras brasileiras falam sobre suas atividades de escrita. Cada uma delas divide conosco como se dá esse processo tão particular.

O episódio “Borboletas” mostra como a escrita se revela no encontro com cada vírgula em Meimei Bastos, no projeto literário de Marina Colasanti, na disciplina e no caos de Ana Maria Machado, na escrita em espirais de Lya Luft, no escrever diário de Cristiane Sobral, na pulsão em Conceição Evaristo, no lapidar de Beatriz Bracher, na fluidez de Susana Fuentes, na sintaxe de Lilian Fontes e na descoberta da escrita a partir da escrita em Stella Maris Rezende.

Assista ao trailer do “Caçadoras de borboletas”, o segundo episódio da série “Literatura, Substantivo Feminino”.

Saiba onde assistir à série!

CinebrasilTV – Dias/Horários: Domingo às 09h00 / Quarta às 10h00 / Quinta às 10h30 / Segunda às 11h30 / Terça às 12h00 / Domingo e Terça às 21h00 / Sexta às 22h30 / Sábado às 23h30

Quando Começa a Escrita?

Os textos não surgem do mesmo lugar!

Pode ser que você esteja em uma festa e, de repente, uma frase que alguém disse te remeteu a um lugar, a uma lembrança ou a alguém. De repente, isso te levou a escrever uma história.

Pode ser que você esteja sentada em sua mesa de trabalho, esperando alguma ideia vir, enquanto você rabisca frases soltas que surgiram em sua mente inquieta.

Ou quem sabe você tem excelentes ideias, mas não sabe qual delas quer escrever e transformar numa história.

É nesse momento que a escrita começa?

“Um livro começa muito antes da hora em que o autor senta para escrever, e ao mesmo tempo, quando chega o momento de escrever, eu pelo menos nunca sei exatamente para onde ele vai. Sei de onde estou partindo, que está vindo ali, mas o rumo que vai tomar eu não sei.”

Ana Maria Machado

Para Ana Maria Machado, o começo é anterior ao ato da escrita. A escritora, no entanto, sempre sabe do surgimento da existência de sua obra, de quando aquela obra começou. Não há incerteza no começo, a incerteza está no processo e no fim. A aventura está no caminho e na incerteza do lugar onde vamos chegar.

Essa incerteza não é algo para se preocupar, pelo contrário.

A aventura começa logo pela manhã, ou bem antes disso, no caso de Lya Luft:

“Em geral eu escrevo mais de manhã, depois que a gente toma café, meu marido sai para o trabalho, eu fico por aí (…) mas às vezes quando estou bem no auge da trama do aconteceu, posso acordar as 3 da madrugada com uma ideia maravilhosa, levanto, vou para o meu computador.”

Quando uma ideia grandiosa surge ela não respeita horário. As situações mais inusitadas podem servir de inspiração para uma história.

Quanto à ideia, ela já estava dentro da escritora, mas aquela frase, aquele objeto ou aquele lugar serviu de gatilho para ebulir aquela inspiração.

E se, mesmo assim, a ideia não vir?

A escrita também requer uma dose de rigor e disciplina. Do contrário, as ideias ficam pairando na cabeça e não se materializam em crônicas, poemas ou romances. É preciso vontade e ação para garantir a possibilidade de que essas ideias sejam partilhadas com outras pessoas através da literatura.

Vamos pensar em uma situação: até temos aqui a centelha de uma ideia, mas a inspiração capaz de provocar desdobramentos para uma história não acontece.

Toda escritora já deve ter passado por isso… aquele momento em que a ideia não vem, ou que a inspiração não aparece para somar com a ideia.

Quando isso ocorre na vida de Beatriz Bracher, a rotina permanece.

“Eu fico sentada, em geral, 3 a 4 horas ao dia em frente ao computador me martirizando assim, mas depois que eu começo, depois que vem a história, aí é ótimo, Fico essas 4 horas todos os dias e desenvolvendo aquilo que eu já comecei, aí eu escrevo muito, muito, muito.”

Cristiane Sobral, assim como Bracher, também mantém uma rotina. Independentemente de ter uma ideia na cabeça ou não, ela se senta em frente ao computador para trabalhar.

“Mesmo que eu não escreva, eu gosto de deixar aquele tempo para a minha mente trabalhar, porque a inspiração, ela é muito imprecisa. Não se sabe exatamente quando ela vai chegar, de que maneira.”

Quando Ana Maria Machado nos diz que a escrita surge antes de começarmos a escrever, pode ser que uma ideia tenha sido apenas o gatilho que faltava para a escrita começar.

Mas, como vimos, mesmo que você pegue uma cadeira e se sente na frente do computador, a ideia pode não vir.

No entanto, há uma fonte imensa de material de trabalho contida em cada escritora. Meimei Bastos reforça que, se a escrita parte da escritora, a sua experiência de vida já faz parte do processo criativo.

“Começa quando eu acordo, quando eu me dirijo até a parada de ônibus para ir ao trabalho, quando eu sou amassada no ônibus lotado. Isso faz parte do meu processo criativo, porque isso acumula, vai criando sensações e vai gerando várias coisas que depois são externadas na minha escrita.”

De alguma forma, movida pela inspiração, por uma ideia ou simplesmente pela rotina do ofício, é do ato de se sentar em frente ao computador ou pegar um caderninho de anotações que a escrita vai surgindo.

A Escrita Escrevendo por Si

Às vezes a escrita funciona como uma pulsão, você vai escrevendo, você vai escrevendo, as ideias também vão vindo, você vai compondo o texto…”

Conceição Evaristo

Como se fossem linhas se organizando para formar um tecido, a escrita surge. Obviamente, há o esforço e a dedicação da escritora. 

Para Conceição Evaristo, chega um momento que uma palavra já pede outra.

Susana Fuentes também reconhece esse efeito em seu trabalho. 

“Sabe que as maiores alegrias do ofício de ser escritora é quando o texto se escreve, você começa a escrever diante do papel em branco, mas de repente você entra em um modo de escrita que aquilo que está escrevendo começa a se fazer sozinho, a partir de você.”

E não são apenas as palavras que vão se formando. A história também se forma a partir da organização dessas palavras. Stella Maris Rezende entende bem esse processo:

“Eu não planejo as minhas histórias, eu escrevo para descobrir sobre o que eu quero escrever.”

Assim como as palavras vão se manifestando, e uma palavra puxa a outra, formando uma história, a história também passa a ter uma forma. A forma que, mesmo sem querer, concebeu e foi concebida pela escritora.

Um dia, um aluno de pós-graduação de uma universidade, me disse: “dona Lya, a senhora escreve por espirais, a senhora vai e volta, vai e volta”. E é verdade, então às vezes nesses encontros com estudantes, ou com o público, eles têm uma visão que é verdadeira e eu nem tive da minha obra, é bem interessante isso aí.”

Lya Luft, ao narrar o fato acima, mostra como a forma da escrita de cada autora é formada, mesmo que ela não tenha consciência plena disso. Aqui, forma-se também a escritora, com sua peculiar maneira de se expressar através das palavras.

Se “Escrever é Cortar Palavras”…

Caçar borboletas exige poesia e técnica, e técnica é sinônimo de prática.

Como vimos, cada escritora tem seu processo de trabalho, com suas especificidades. Mas, todas concordam que escrever requer dedicação e exercício.

Por esse motivo, há tantas ideias incríveis que não chegam a ser escritas. Para Marina Colasanti a escrita requer mais que uma ideia, requer um projeto literário.

Qualquer ideia não serve para o escritor, a ideia tem que se encaixar dentro do projeto literário que ele tem, que ele está construindo,(…) vai acrescentando elementos para a construção de um projeto que seja harmonioso, que faça um sentido e que te represente.

À medida em que a escritora se empenha em ideias que estejam em sintonia com seu projeto literário, ela também se especializa em um gênero literário ou em um assunto. Isso não significa que ela não irá explorar outras possibilidades, mas sim que ela tem a chance de se aprofundar no que mais a interessa na escrita.

Ao tecer as palavras a história surge, e o tecido de Lilian Fontes é construído com o foco na construção do texto em si:

“O meu interesse muito grande é também na escrita, na forma de escrever, no uso da sintaxe, no uso da palavra, mais do que narrar uma história.”

Conceição Evaristo também gosta muito do trabalho com texto. (…) “É muito bom quando você encontra uma palavra que você diz “é quase essa”, a gente sempre diz “é quase essa”.”

Enquanto ela diz “é quase essa”, as escritoras continuam seu ofício, cada qual a sua forma e maneira, dividindo conosco suas experiências e nos inspirando a encontrarmos nosso “jeito” de escrever.

Para conhecer mais, assista “Borboletas”, o segundo episódio da série “Literatura, Substantivo Feminino”.