Carolina Maria de Jesus, o documentário

O documentário Carolina, produzido pelo Mulheres de Luta, reconta a história da escritora Carolina de Jesus a partir de diversos relatos.

Vera Eunice, filha de Carolina, relembra das memórias da infância e do empenho da mãe escritora para sustentar os filhos. Tom Farias, biógrafo de Carolina de Jesus, reconta uma história ainda mais antiga, a dos tempos de menina, quando Carolina se encantava pelas letras, mas sentia na pele a violência racial.

Ao passearmos pelas lembranças da infância de Carolina, nossos pés estarão circulando pela pequena Sacramento de Minas Gerais, cidade natal da escritora. O secretário de cultura de Sacramento, Carlos A. Cerchi, também participou do recontar essa história a partir dos locais pelos quais a escritora passou e viveu.

Ramon Botelho, diretor do espetáculo Carolina M. Jesus/ Diário de Bitita, também compartilha suas descobertas sobre a escritora, bem como a atriz da peça, Andréia Ribeiro, que mergulhou nos relatos de Carolina.

A atriz Cyda Moreno também interpreta Carolina, dessa vez no espetáculo “Eu, Amarelo”. Assim como a escritora, Cyda é mineira e negra, reconhecendo também como suas as dores racismo sofrido pela autora de “Quarto de Despejo”.

O jornalista Audálio Dantas, a atriz Ruth de Souza e as escritoras Miriam Alves, Meimei Bastos, Conceição Evaristo e Sirlene Barbosa também falam sobre Carolina de Jesus e sua contribuição para a literatura brasileira.

Saiba onde assistir ao documentário CAROLINA DE JESUS!

A descoberta da leitura e a dor do racismo

Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914 em Sacramento, Minas Gerais. Filha de pais negros, analfabetos e sem condições de investir em seus estudos, Carolina contou com o apoio de uma mulher, como conta o Secretário de Cultura de Sacramento, MG.

“Na época não existiam escolas públicas, então uma senhora de Pedregulho chamada Maria Leite é que custeou os estudos de Carolina nesses dois anos que ela teve a oportunidade de ser alfabetizada. Então esse é um fato relevante, porque foi sem dúvida a base dela se tornar uma escritora”

Carlos A. Cerchi, Secretário de Cultura Municipal de Sacramento, MG

Carolina aprendeu a ler e não parou mais. Andréia Ribeiro, atriz e intérprete de Carolina em “Carolina M. Jesus/Diário de Bitita”, lembra com carinho dessa etapa da vida da escritora:

“Tem uma passagem no livro diário de Bitita, que ela sai da escola e ela sai andando pelas ruas de Sacramento e ela começa a se dar conta que ela sabe ler. Esse momento de Carolina para mim é muito emocionante. Eu acho que ali Carolina começou a se abrir realmente para o mundo, ela começou a entender o mundo através da leitura.”

Andréia Ribeiro, Atriz da peça Carolina M. Jesus/Diário de Bitita

A desejo pela leitura em Carolina de Jesus também é destacado pelo diretor do espetáculo, Ramon Botelho, que comentou:

“Ela começou a ler compulsivamente os livros que doavam, que davam, que ela encontrava na rua. O que salvou a Carolina das desgraças do mundo foi a literatura.”

Ramon Botelho, Diretor da peça Carolina M. Jesus/ Diário de Bitita

Ironicamente, foi justamente por causa da leitura que Carolina de Jesus conheceu desde cedo as dores do racismo. Tom Farias, biógrafo de Carolina de Jesus, conta essa passagem traumática de sua vida.

“Só um detalhe da vida dela. Ela, muito jovenzinha, foi presa porque estava lendo na porta de casa, e isso era uma coisa muito… enfim, maluca, né? Porque ninguém acreditava que uma menina negra pudesse saber ler, e aí achavam que a Carolina estava lendo o livro de São Cipriano, e na verdade estava lendo um dicionário que ela gostava muito de ler.”

Tom Farias, Biógrafo de Carolina de Jesus

Em “Diário De Bitita”, Carolina narra que quando o soldado foi espancá-la com um cassetete de borracha, sua mãe entrou na frente para defendê-la. Ela recebeu tantas pancadas no braço que ele quebrou. Cinco dias presas e sendo constantemente espancadas e humilhadas verbalmente. 

Quando Cyda Moreno interpreta as histórias de Carolina em “Eu Amarelo”, a atriz reconhece muitos pontos em comum com a escritora.

“Quanta semelhança tem entre eu e Carolina. Quantas coisas nos une, né? Primeiro que ela é mineira, e eu também sou. Então quando ela fala de Sacramento, do seu lugar de origem, e daquele racismo perverso, é tudo muito familiar para mim. E eu trago ainda muito forte a marca do racismo que fez parte da minha infância e da minha adolescência.”

Cyda Moreno, Atriz intérprete de Caroline em “Eu Amarelo”

Mas isso não faria Carolina desistir da leitura e da escrita, pois como afirma Miriam Alves:

“Ela tinha o projeto de ser escritora. Ela coloca no Diário dela assim: eu estou escrevendo, eu vou ser escritora, povo do meu Brasil, eu escrevo pra vocês.”

Miriam Alves, Escritora

A importância de ler Carolina de Jesus

Ruth de Souza foi a primeira atriz a interpretar Carolina. No ano seguinte à publicação de “Quarto de Despejo”, a escritora gaúcha Edy Lima a adaptou para o teatro com direção de Amir Haddad. 

“Uma vez, o Audálio Dantas me levou para olhar no Canindé, na casa dela. Isso me ajudou muito a criar a personagem.”

Ruth de Souza, atriz

A escritora Meimei Bastos, identifica todo esse ambiente da periferia nas letras da escritora.

“E eu falo da Carolina, não porque é a maior referência da literatura negra periférica para mim, e para muitas outras pessoas, mas é por conta do quanto ela foi especial para essa pessoa que escreve. Entende? Eu falo enquanto leitora e da importância da literatura para mim, no encontro com a Carolina, porque isso influencia na escrita.”

Meimei Bastos, Escritora

A escrita esteve sempre presente na vida de Carolina, e Sacramento ficou pequena para ela. De Minas para São Paulo, Carolina partiu em busca de oportunidades para viver da escrita, mesmo tendo que enfrentar inúmeras dificuldades. Vera Eunice, filha da escritora, relembra.

“Ela engravidou do meu irmão, e aí grávida, a coisa ficou difícil. Então ela foi para rua.  Aí veio um político muito famoso aqui em São Paulo que era Lucas Nogueira Garcez. Eles queriam limpar São Paulo da turma dos favelados, dos mendigos. Então eles colocaram vários caminhões nas suas, colocaram todos eles no caminhão e mandaram lá para o Canindé, onde é o quarto de despejo. (…) Aí ela foi despejada lá, sem casa, sem nada.”

Vera Eunice, Professora e filha de Carolina

Carolina passou a viver no Canindé, até que em 1958 o jornalista Audálio Dantas foi até a favela para fazer uma matéria. Lá ele conheceu Carolina que apresentou a ele seu diário, que viria a se tornar o livro “Quarto de Despejo”. A matéria gerou repercussão e a obra foi publicada em 1960. Audálio Dantas relembra:

“Quando eu vi o diário dela eu disse que não precisava fazer porque já tava feita a reportagem, e da maneira mais profunda e adequada possível, por quem viveu aquela situação. Ela veio no momento em que o próprio crescimento do país trazia o fenômeno da urbanização, tudo isso ela representa, ela é uma figura que precisa ser melhor estudada do que tem sido até agora”

Audálio Dantas, Jornalista

Audálio Dantas tem razão. A escritora Sirlene Barbosa também concorda:

“Eu resolvi fazer uma pesquisa, uma pesquisa bem íntima, pequena mesmo, e eu percebi que de 40 educadores apenas 05 conheciam Carolina, e nenhum nunca tinha lido Carolina em sala de aula. Aquilo me deixou realmente perturbada, porque como eu trabalhava Carolina em sala de aula, além de outros escritores da literatura negra, eu percebi o quanto dava certo, o quanto havia proximidade, o quanto os estudantes se identificavam com aquilo, e achei de suma importância apresentar Carolina.”

Sirlene Barbosa, Escritora

Sirlene Barbosa trouxe a escritora para os quadrinhos com a HQ Carolina, que criou junto com João Pinheiro.

O importante é lembrarmos que Carolina de Jesus, além de ser uma das escritoras mais importantes do país, a sua produção foi vasta. Quarto de Despejo foi traduzido para catorze línguas e ela escreveu romances, contos, letras de músicas, diários poemas e peças teatrais.

Assista ao trailer do documentário!