As causas do aumento do preço do arroz

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A pesquisadora Romilda de Souza Lima apresenta um panorama da rizicultura no Brasil, explica as causas do aumento do arroz e opina sobre como o Estado deveria atuar. Assista online!
Saiba mais sobre a importância do arroz no prato brasileiro
Transcrição de entrevista concedida pela Profª. Drª. Romilda de Souza Lima, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná ao Mulheres de Luta.

No que se refere a produção de arroz, a rizicultura, o Brasil está entre os países que mais produzem, assim como outras commodities agrícolas. A soja, milho, o trigo.

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de arroz, hoje, no Brasil.

O país exporta para mais de 100 países, sendo Venezuela e Peru os principais compradores.

Dados do Ministério da Economia apontam que o país exportou 665.000 toneladas, de Janeiro a Agosto de 2019. Em 2020 aumentou a exportação para 1,15 milhões de toneladas no mesmo período, de Janeiro a Agosto.

Certamente esse aumento na exportação é uma das causas do aumento de preço do arroz. Uma das regras do capitalismo é vender para quem paga mais, um das razões, também, para isso, é a desvalorização do Real em relação ao Dólar.

Outro motivo é o aumento do consumo durante a pandemia, porque as pessoas estão cozinhando mais em casa e, consequentemente, podem estar contribuindo para aumentar o consumo deste produto.

Há ainda o pequeno incremento do Auxílio Emergencial, que o setor econômico do governo tem apontado como sendo o responsável pela elevação do consumo e, consequentemente, pela alta do preço do arroz.

Honestamente, não creio ser esse o motivo. O valor é muito baixo e o público que o recebe já consome, basicamente, o arroz e feijão no cotidiano, mesmo antes da pandemia. Não acredito que tenham usado o recurso para aumentar o consumo de arroz.

A alta dos preços está muito mais associada à exportação, ao aumento da exportação deste produto nesse último ano.

Nessas situações é fundamental um acompanhamento do governo no sentido de regular, para que o alimento não sofra aumentos abusivos. Porque trata-se de um alimento que é componente básico da cultura alimentar da maior parte da população.

Em função disso e, também, de eventos climáticos que venham a ocorrer e causarem grandes prejuízos na produção de alimentos, é que o governo precisa administrar e manter o estoque público regulador de alimentos básicos consumidos pela população. Como o arroz, feijão, café, o trigo, por causa do pão, principalmente. Entre outros produtos. Para que em uma situação de crise possa colocá-los no mercado com preço mais baixo e ajudar a equilibrar essa balança, e não faltar alimentos internamente.

Isso é uma ação importantíssima e estratégica de soberania alimentar e de segurança alimentar e nutricional.

No Brasil esse estoque público é realizado pela Conab – Companhia Nacional de Abastecimento. Mas, ao que parece, os estoques de arroz são baixos e insuficientes. São poucos, também, os armazéns da Conab em funcionamento no país hoje.

O Programa de Aquisição de Alimentos – PAA, perdeu seu lugar de importância e de centralidade que ocupava em nível governamental. Já estamos vendo algumas consequências disso.

É um contrassenso um país se gabar de ser um grande exportador de grãos e, ao mesmo tempo, faltar alimentos estocados para atender a população interna em situação de crise, sobretudo, para a parcela da população mais pobre, os que mais sofrem o impacto com a alta dos preços dos alimentos que compõem a cesta básica.

A monocultura do arroz não se dá pelos agricultores familiares em grande parte dos casos. Mas os pequenos agricultores também cultivam alimentos, cerca de 34% do arroz brasileiro é proveniente da agricultura familiar, segundo dados do governo, sobretudo, na forma de associações e cooperativas.

Além disso a agricultura familiar produz 70% do feijão consumido internamente e 38% do café. Estes dados são de 2019.

Dados da Conab, ainda de 2019, apontam para uma redução recorrente das áreas de rizicultura pela agricultura familiar. O cultivo se dá em pequenas áreas e destina-se ao autoconsumo e a venda do excedente.

Um dos pilares de manutenção da produção de arroz, ainda pela agricultura familiar hoje, é o PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar. Para a agricultura familiar, no que se refere ao arroz, o melhor caminho é o cultivo do arroz orgânico, já que possui um perfil de consumidor no Brasil e no exterior interessados em alimentos livres de agrotóxicos, mais sustentáveis ecológica e socialmente.

A melhor referência, hoje, de associação de agricultores familiares, agroecológicos na produção de arroz no Brasil é o MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, do Rio Grande do Sul.

É hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, exporta para mais de 10 países, mas, também, entregam alimentos para alimentação escolar, através do PNAE, para vários estados.

Baseados nos princípios da agroecologia, esses agricultores e agricultoras comprovam que é possível produzir alimentos sadios e sustentáveis, e comercializá-los a preços justos.

Na última safra foram colhidas 15.000 toneladas, parte dessa produção, durante a pandemia, foram doadas para compor cestas de alimentos para grupos socialmente vulneráveis. São 364 famílias, em 14 assentamentos, situadas em 11 municípios gaúchos que estão envolvidas na produção do arroz orgânico.