Tata Amaral

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Habituada a visitar o cinema na infância pela oferta de salas no centro da cidade de São Paulo na companhia dos pais, Tata Amaral sempre foi encantada pelo mundo da sétima arte, mas foi apenas na adolescência que ela se descobriu cinéfila. Aos 16 anos de idade, devorava tudo que tinha em cartaz. A cineasta percebeu que retratar a realidade brasileira no cinema era possível quando assistiu ao filme “Rio, 40 Graus” e, hoje, tendo dirigido sete produções, a garotinha vislumbrada pelas filmagens conquistou prêmios enquanto também lidava com a maternidade e com as próprias transformações da vida adulta.      

Era final dos anos 1970, a ditadura militar ainda calava a democracia nas esquinas brasileiras e inflamava a juventude contra o regime instaurado no país. Esse era parte do cenário em que Tata se encontrava quando teve uma filha, com seu ex-marido, e se via capturada pela paixão pelo cinema e decidiu se aprofundar nos estudos. Prestou vestibular para a ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes), mas, sem sucesso, prosseguiu como ouvinte.   

Devido ao horário das aulas, que aconteciam pela manhã e impossibilitava o trabalho em período comercial, a cineasta conseguiu exercer a profissão em pesquisa de mercado e tradução, pela flexibilidade de horário, conciliando o sustento e cuidados com a filha. “Tinha que me constituir profissionalmente enquanto também estava cuidando dela [da Caru]”, disse ao Mulheres de Luta em entrevista concedida no último dia 4 de junho.

No desejo de conseguir se realizar no mundo cinematográfico e também na maternidade, Tata Amaral começou na produção, do qual é considerado por ela como fator fundamental para seu crescimento enquanto diretora, pois conheceu as entranhas do cinema: “…sabendo o tempo das coisas, o que é necessário para colocar as pessoas no set, filmando, e, por isso, quando comecei a dirigir, sabia como as coisas funcionavam”. 

Em 1997, Tata lançava seu primeiro longa, que viria a ser premiado como melhor filme de estreia no Festival de Havana e de melhor direção no Festival de Brasília, o “Um Céu de Estrelas”.  A partir daí a cineasta lançaria a tríade de arquétipos femininos que, hoje, representam o nascimento, crescimento e morte, a partir da construção das personagens dos seus filmes, com “Através da Janela”, de 2000, e “Antônia”, que foi expandido como série televisiva para a Rede Globo. 

Durante a sua trajetória, a diretora não se recorda de problemas com contestação de autoridade nos sets por ser mulher, mas ela expõe situações como ver homens menos experientes conquistando espaços, no sentido comercial, ou, sendo chamados para projetos. “Poucas das vezes em que fui chamada para dirigir um projeto, eu conto nos dedos”. 

Entre as produções, e principalmente depois de “Antônia”, Tata precisava de uma nova produtora pois havia se separado dos então sócios. Foi quando pediu ajuda à filha, que foi seu apoio moral, físico e afetivo; fundaram a Tangerina Entretenimento, em 2006. Tata Amaral falou com carinho que Caru estava saindo da faculdade e “segurou a onda da produtora”, relembrando que a filha não gostava nem de visitar os sets quando criança.  

Atualmente, além de ter uma série documental que conta a história do audiovisual brasileiro a partir da produção das mulheres, rodando no Cine Brasil, chamada “As Protagonistas”, Tata Amaral também está escrevendo sobre as mudanças da política brasileira desde a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre uma produção e outra, como projetos de séries. 

Tata consolidou-se como uma das principais diretoras do cinema brasileiro, se preocupando em registrar o social brasileiro a partir das lentes e narrando a importância das mulheres ao país, de dentro e fora dos cinemas. 

Em entrevista, Tata Amaral responde como escolhe o tema de um filme que aborda o feminino

A cineasta Tata Amaral conversou com o Mulheres de Luta sobre as personagens mulheres presentes em seus filmes.

“Mesmo em “Um Céu de Estrelas” aconteceu uma coisa interessante, e acho que aí é que começou esse meu desejo, ou esse meu olhar para os personagens femininos, que é uma constante dos meus filmes e na minha carreira.”

“Um Céu de Estrelas”, que partiu do livro de Fernando Bonassi, ganhou um novo foco narrativo nas telas, passando da personagem masculina para feminina. Outro procedimento foi o de unir o ponto de vista do espectador ao ponto de vista da personagem feminina.

A tragédia também foi um tema que Tata Amaral explorou em sua carreira, e sua parceria com Jean-Claude trouxe “Através da Janela”, estrelado por Laura Cardoso.

A cena do rap paulistano é o ambiente de “Antônia”, um grupo de mulheres que batalha para viver do hip-hop, o que para Tata Amaral evocou outras características específicas como a negritude da mulher periférica.

Conforme se aprofunda no feminino, Tata Amaral explora trilogias: três arquétipos femininos, três estágios da vida, e outros olhares ou procedimentos audiovisuais com atenção no feminino e no reconhecimento da autoria feminina no cinema.