Escritoras brasileiras e a criacão de personagens

A literatura é capaz de transmitir ao leitor sensações e emoções, conectá-lo com os personagens e transportá-lo para lugares e tempos diferentes. Essa conexão acontece porque os livros são feitos por pessoas, que acabam passando suas próprias emoções – sejam baseadas em fatos da própria vida ou inspirados pela criatividade e imaginação – para seus personagens.

Conceição Evaristo

Cada escritora possui uma vivência e visão sobre a vida, além de interagir em diferentes círculos de amizade e família. Por isso, o processo e a inspiração para criar um personagem são individuais.

Para a escritora Conceição Evaristo, não há criação de personagem sem inspiração na vida, o que só é possível com a imaginação de algo que não está relacionado à vivência. Inclusive, ela usa o termo “escrevivência” para definir a forma como escreve seus personagens e histórias. Nem tudo o que a autora escreve é sobre a própria vida, mas inclui histórias que ela vê e ouve de outras pessoas.

Na obra “Olhos D’água”, por exemplo, a autora usou em um dos contos a inspiração de momentos da sua infância com sua mãe e na vida adulta com sua filha. Em outro conto, na mesma obra, a personagem da menina Zaíta foi inspirada na infeliz fatalidade, ainda muito comum, que é a morte de crianças vítimas de bala perdida.

Em “Vozes-Mulheres”, um dos poemas mais tocantes da escritora, o eu lírico da obra possui traços de um personagem autobiográfico. A autora começa com um trecho da infância de sua bisavó, viajando no porão de um navio e trabalhando sem poder viver sua infância com dignidade.

Depois, ela relembra outros momentos da vida de sua família, como a avó servindo aos patrões brancos; em seguida a mãe, que trabalhava como doméstica em casas de famílias abastadas e outros.

Conceição fez referência a si própria com uma voz que mostra a perplexidade de uma história toda, manchada com sangue e marcada pela fome, cujo final é marcado pela filha enquanto esperança de uma vida melhor, carregando toda a história de suas antepassadas.

Outro exemplo é a escritora brasileira Alice Ruiz, que também cria seus personagens através da inspiração externa aos momentos da própria vida. Ela usa como inspiração, principalmente, a biografia de outras pessoas e suas respectivas ações, buscando observar e captar muito mais do que os sentimentos despertados por essas pessoas, mas também as emoções que envolvem a todos naqueles momentos.

Para ela, a ficção e a biografia não podem ser separadas, apesar de entender que na criação de um personagem não é possível ser fiel à biografia, uma vez que ao criar um personagem haverá uma nova perspectiva, tornando aquilo ficção.

Já a autora Lúcia Bettencourt se inspira e, assim, transforma a si própria, conforme relata. Suas obras sempre estão ligadas a uma parte pessoal e, muitas vezes, isso ocorre de maneira intuitiva, pois possui traços que ela mesma desconhece. Desse modo, seu processo de criação acaba sendo mais imaginativo e intuitivo.

Para Lúcia, o uso da imaginação começou na infância. Por passar muito tempo sozinha, ela criava personagens para serem seus amigos e seus brinquedos tinham personalidades dadas por ela, além de imaginar aventuras “de menininhos” iguais às que ela lia nos seus livros.

Em seu tempo como adolescente, já criava personagens masculinos para servirem de pares românticos. Por isso, seus personagens acabam surgindo mais da sua imaginação do que da biografia.

Apesar desse traço, em seu livro “A Secretária Borges”. Lúcia resgata uma cena em que a neta e a avó dançam Charleston. Essa história de fato faz parte da vida de sua avó, que venceu um concurso de dança com seu tio-avô.

Por outro lado, a escritora Miriam Alves cria personagens compatíveis com sua personalidade, mesmo quando não são inspirados em sua biografia propriamente. Um desses personagens é a Dona Patrocínia do livro “Bará na trilha do vento”, criação inspirada em sua avó, que faleceu na sua infância.

Por sua vez, a escritora Lilian Fontes obtém inspiração para criar seus personagens da observação de pessoas com quem convive ou conviveu e, além disso, faz pesquisas e se entrega a horizontes desconhecidos para agregar informações necessárias para essa criação.

No seu livro “Escrita Fina”, há diversos contos escritos baseados em temas. Em um deles, o personagem-narrador é um homem homossexual soropositivo, em outro uma mulher negra, como também há conto sobre idosos. Para criar esses personagens, ela buscou informações e pesquisou sobre os assuntos que os envolviam, por isso eles acabam sendo mais imaginativos.

De uma maneira parecida, a escritora Nélida Piñon imagina a si mesma como se fosse o personagem, sendo ele homem, criança, mulher, entre outras personalidades. Segundo ela, o autor e o personagem são uma forma de aliteração, logo um acaba sendo parte do outro. Quando ela cria um personagem masculino, aplica seu vasto conhecimento em história e sabe como é o comportamento do homem, usando esse conhecimento para transmitir autenticidade para o personagem.

Em seu romance “A República dos Sonhos”, ela representa o personagem masculino Madruga, que é protagonista de forma redonda como sendo forte, violento, conquistador, mas também com traços de gentileza oriundos do amor que sente pela neta.

A escritora Beatriz Bracher constrói seus personagens de forma muito particular. Para a criação dos três narradores no livro “Antônio”, a escritora entrevistou várias pessoas para que cada um de seus personagens tivesse uma maneira própria de falar que os diferenciasse.

A escritora Carola Saavedra usa a observação e presta muita atenção em tudo o que ouve das pessoas para transmitir essa autenticidade para seus personagens. Quando cria personagens femininas, ela tem o conhecimento do comportamento e interior feminino, então consegue se aprofundar no núcleo dessas personagens, assim como fez em sua obra “Flores Azuis”.

Para criar personagens masculinos, ela utiliza as memórias da convivência com seus irmãos homens e, até certo ponto do núcleo do personagem, consegue atingir de forma consciente, a partir dali ela usa a intuição para se aprofundar mais na essência do que busca.

Em síntese, o processo de criação de personagens é diferente para cada escritora e obra. Alguns criam personagens mais relacionados com a própria vida ou de pessoas ligadas a ela (são mais autobiográficos e biográficos), enquanto outros usam a imaginação para criar personagens totalmente novos, bem singulares. Também há aqueles que incorporam as características dos personagens para depois transmitir para a escrita.

No entanto, uma coisa é fato: o que inspira a todos são as pessoas.

Inscrições abertas para o Curso de Criação de Personagens, com as escritoras Cristiane Sobral, Lilian Fontes, Lúcia Hiratsuka e Stella Maris Rezende.