O Feminismo decolonial

feminismo decolonial

“Sem o trabalho de milhões de mulheres que vem desde a escravidão até hoje não há sociedade e capitalismo neoliberais”.

François Vergès

Desde a chamada primeira onda do feminismo no século XIX, uma das pautas mais discutidas foi a igualdade de direitos entre homens e mulheres, especialmente com relação ao voto. Esse movimento, bem como os demais movimentos feministas posteriores à ele, alteraram as perspectivas sociais, econômicas e culturais no ocidente.

Ainda assim, a maioria desses movimentos foram liderados por mulheres brancas de classe média, deixando de lado as questões relevantes à mulher “não branca”.

À partir da década de 60 começaram os movimentos feministas pós-coloniais, abraçando as demandas relativas às mulheres que sofrem as desigualdades sociais em decorrência do processo de colonização europeu.

Sem considerarmos as consequências da exploração colonial, do racismo, da homofobia e do capitalismo, o feminismo teria apenas caráter eurocêntrico, uma vez que estaria excluindo as demandas das mulheres não brancas. Françoise Vergès nomeia esse movimento de feminismo civilizatório, uma vez que as políticas imperialistas mantém um modelo de opressão não apenas do homem sobre a mulher, mas de um grupo social sobre outro.

O feminismo decolonial é um movimento que, antes de mais nada, reavalia a perspectiva europeia imposta no mundo. O feminismo civilizatório é apenas um dos movimentos criticados pelo feminismo decolonial, já que suas pautas se encerram nas demandas brancas e burguesas como igualdade de direitos, paridade no mercado de trabalho e liberação sexual, deixando de lado as desigualdades sofridas entre grupos diferentes de mulheres e ignorando os resultados sociais da escravização e do capitalismo nos povos que continuam sofrendo com as consequências da colonização.

Para que o projeto de colonização funcionasse aos interesses dos povos europeus, a dominação política e econômica veio atrelada à uma racionalidade euro centrada que elimina a diferença. Sob essa perspectiva, os povos escravizados não perdiam apenas sua liberdade. Os colonizadores cercearam seus costumes, cultura e religiosidade, obrigando-os ao trabalho forçado, sem falar nos estupros, na destruição dos laços familiares e na extrema violência física a que eram submetidos.

Dessa forma, superando as barreiras geográficas, as Epistemologias do Sul oriundas da luta de mulheres de variados locais que foram colonizados, toma corpo e fortalece o feminismo decolonial que visa a reapropriação dos saberes que foram subjugados, seja no campo social, cultural, científico, técnico ou filosófico.

Uma perspectiva feminista que desconsidera o processo de dominação cultural e econômico de um povo sobre o outro acaba reafirmando ideologias segregacionistas.

Sendo assim, o feminismo decolonial, como reforça Vergès, é antes de tudo antirracista, anti-imperialista e anticapitalista.

No prefácio da edição brasileira do livro de François Vergès “Um Feminismo Decolonial”, ela menciona o trabalho das empregadas domésticas e faxineiras brasileiras, em sua maioria mulheres negras. Observa inclusive que essas mulheres continuaram trabalhando mesmo em período de pandemia (COVID 19), expondo-se ao risco de contágio por terem que utilizar transportes públicos abarrotados.

Essa constatação reforça o capitalismo racial, que banaliza as vidas negras e legitima suas mortes pelo funcionamento da máquina que foi engendrada por um grupo que mantém seu império.

Na esteira dessa reflexão não há como falar de igualdade de gênero sem levarmos em consideração as conexões entre classes, raças e saberes filosóficos e culturais. Além disso, é importante considerar as peculiaridades geográficas e históricas de cada grupo de mulheres, bem como as demandas das mulheres homossexuais e transgênero.

Não existe uma verdade universal que atenda todas as demandas, porque cada grupo tem suas particularidades, vivências e características, ao contrário do que preconizava o colonialismo.

O termo decolonial também reforça essa perspectiva.

Descolonização se refere a uma emancipação ou superação do colonialismo. Já o termo decolonialidade pretende a transcendência da colonialidade que ainda atua na manutenção das estruturas de poder. Trata-se da substituição do modelo epistemológico euro centrado por um diálogo sobre a economia, cultura e política sem a dominação e opressão ainda atuantes.

Maria Lugones, uma das pesquisadoras mais relevantes no estudo da intersecção de raça, gênero e colonialidade aponta alguns caminhos.

“Não se resiste sozinha à colonialidade do gênero. Resiste-se a ela desde dentro, de uma forma de compreender o mundo e de viver nele que é compartilhada e que pode compreender os atos de alguém, permitindo assim o reconhecimento. Comunidades, mais que indivíduos, tornam possível o fazer; alguém faz com mais alguém, não em isolamento individualista.”

Maria Lugones

Lugones reforça a importância de revisitar a história sob um novo olhar e, ao mesmo tempo, partilhar essa experiência com o outro.

A principal consequência da colonização sobre as vítimas da colonialidade é a perpetuação de um paradigma que foi engendrado pelos colonizadores. Ao reduzirem o espaço da mulher ao ambiente doméstico, o patriarcalismo europeu se perpetuou onde antes ele não havia. A mulher negra, vítima do colonialismo, não tem na maioria das vezes a empatia dos homens de sua comunidade, sofre violências das mais diversas pelo seu corpo racializado, além do controle financeiro imposto pelas regras do capitalismo que as mantém nos serviços menos remunerados e valorizados.

É preciso, portanto, perceber essas estruturas e promover esse resgate. Para essa retomada, Lugones conclui:

“O passar de boca em boca, de mão em mão, práticas, valores, crenças, ontologias, tempo-espaços e cosmologias vividas constituem uma pessoa. (…) Eles incluem a afirmação da vida ao invés do lucro, o comunalismo ao invés do individualismo, o “estar” ao invés do empreender, seres em relação em vez de seres em constantes divisões dicotômicas, em fragmentos ordenados hierárquica e violentamente. Estes modos de ser, valorar e acreditar têm persistido na oposição à colonialidade.”

Maria Lugones