Julia Lopes de Almeida

“Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.”

Júlia Lopes de Almeida, para a revista A Mensageira (1897)

Júlia Lopes de Almeida fez essa reflexão no final do século XIX, numa época em que a sociedade brasileira destinava um papel secundário às mulheres. Não tínhamos direitos. Esperavam que as mulheres da época preservassem a boa imagem da família, cuidando do lar, do marido e dos filhos. Nesse ambiente,  Júlia, ainda criança, já fazia seus versos às escondidas. Conforme crescia, passou a escrever também sobre personagens femininas, em narrativas que discutiam o padrão feminino da época.

Defensora da educação para as mulheres, do divórcio e do direito ao voto feminino, Júlia Lopes de Almeida trouxe esses e outros temas em suas publicações para periódicos de revistas e jornais. A escritora possui uma obra vasta e variada, e também foi uma das responsáveis pela criação da Academia Brasileira de Letras, mesmo não tendo sido incluída no corpo de escritores da instituição por ser mulher.

Sua obra inclui onze romances, quatro novelas, cinco coletâneas de contos, duas peças de teatro, três coletâneas de crônicas, cinco ensaios/conferências, tendo se tornado uma das escritoras mais publicadas da Primeira República, entre 1889 e 1930. Apesar disso, Júlia Lopes de Almeida é ainda pouco explorada em publicações reeditadas, ou mesmo nas ementas de literatura brasileira que são apresentadas nas escolas e em cursos de Letras, um desafio que as pesquisas na área da literatura feminina brasileira ainda encontram pela frente.

Nesse artigo, o Mulheres de Luta conta um pouco sobre a vida de Júlia Lopes de Almeida, sua obra, e as contribuições da escritora para a literatura brasileira.

A Trajetória de Júlia Lopes de Almeida

“Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! (…) Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso, com descrições e diálogos, quando ouvi por trás de mim uma voz alegre: – Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfalmente a folha e rindo a perder, bradava :– Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá!”

Julia Lopes de Almeida, em entrevista à João do Rio, em 1904.

Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1962, na cidade do Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira, um médico que mais tarde se tornaria o Visconde de São Valentim.  A família de Júlia era culta e rica, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora. Júlia foi alfabetizada por sua irmã mais velha, a professora Adelina Lopes Vieira.

Ainda criança, Júlia mudou-se com os pais para Campinas, no interior de São Paulo, possivelmente devido aos trabalhos do pai que exercia a medicina no eixo Rio-São Paulo.

Ao que tudo parece, o pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e pediu para que ela escrevesse um artigo em seu nome, uma vez que ele não teria tempo para isso. Em 07 de dezembro de 1881, aos 19 anos, Júlia lê seu texto publicado na Gazeta de Campinas, mas para a sua surpresa a assinatura não era a de seu pai, e sim a sua. Seu artigo chamado Gemma Cuniberti era uma crônica generosa à atriz italiana, e após o sucesso da publicação, Júlia Lopes de Almeida torna-se colaboradora do jornal, publicando cerca 43 crônicas entre 1881 a 1884.

Em 1884 passou a escrever também para O País, um jornal carioca para o qual contribuiu por mais de 30 anos. Em sua coluna semanal chamada Dois Dedos de Prosa, a escritora falava sobre assuntos do cotidiano carioca.

Uma vez que tinha espaço privilegiado em um jornal, Júlia também circulava entre os intelectuais da época, que também frequentavam sua casa no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, especialmente nos saraus que ocorriam no salão verde da família.

Em 1886, Júlia Lopes de Almeida se muda para Lisboa, e em 1887, a escritora publica Contos Infantis com sua irmã Adelina Lopes Vieira e Traços e Iluminuras, um livro de contos.  Contos Infantis reúne 27 prosas e 33 textos em versos para crianças.

No mesmo ano, Júlia Lopes de Almeida se casa com o então diretor da revista A Semana Ilustrada, Filinto de Almeida, e também começa a publicar seus textos na revista. Anos depois também passa a escrever para a revista Brasil-Portugal.

No mesmo ano em que volta para o Brasil, 1888, Júlia publica seu primeiro romance, Memórias de Marta. A história do livro é narrada por Marta, uma jovem do século XIX. A obra traz uma autobiografia ficcional pela voz de uma mulher, acentuando o empenho da escritora em promover a voz das mulheres na sociedade. As memórias de Marta são narradas do falecimento de seu pai até o falecimento de sua mãe, período em que Marta e a mãe tiveram que ir morar no cortiço de São Cristóvão.

Seu romance mais aclamado, no entanto, é A falência. Nessa obra, Júlia Lopes de Almeida narra a história de Camila, uma mulher da elite burguesa casada com Francisco Teodoro, um rico comerciante de café. Quando Francisco Teodoro vai à falência e comete suicídio, as mulheres da família começam a lutar pela sobrevivência.

Em suas obras, a escritora reforça uma visão realista e não romantizada do mundo, dispensando o sentimentalismo e acentuando a crítica social.

Júlia Lopes de Almeida e a Academia Brasileira de Letras

Apesar de Júlia Lopes de Almeida ter feito parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, em sua primeira reunião oficial, seu nome não foi incluído. Isso porque os fundadores decidiram que a Academia Brasileira deveria seguir o modelo da Academia Francesa, que era exclusivamente masculina. Filinto de Almeida, escritor e marido de Júlia, ocupou o lugar da esposa na inauguração.

A academia só passou a integrar mulheres em 1977, com a eleição de Rachel de Queiroz, que ocupou a cadeira nº 5.

Em 2017, a academia reconheceu que Júlia deveria ter sido incluída entre os escritores da instituição.

O legado de Júlia Lopes de Almeida

A escritora faleceu em 1934, na cidade do Rio de Janeiro. Após sua morte, o mercado editorial começou a publicar cada vez menos as suas obras, possivelmente porque a escritora não se encaixava nos padrões estéticos modernistas da época.

Apenas por volta de 1990, Júlia Lopes de Almeida volta a ter mais evidência, devido aos esforços das pesquisas voltadas à literatura de autoria feminina. No entanto, falta ainda maior reconhecimento da autora, especialmente quanto ao seu lugar na história da literatura brasileira.

REFERÊNCIAS

SOUZA, Samantha . Memórias de Marta. Uma narrativa ficcional de Júlia Lopes de Almeida. Acesso em 29/08/2021

http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300894965_ARQUIVO_Anpuh2011.SOUZA,S.V.P.2.pdf

DA GAZETA DE CAMPINAS PARA A LITERATURA: UMA REVISÃO CRÍTICO TEXTUAL DAS PRIMEIRAS CRÔNICAS DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

FIGUEIREDO, Viviane Arena. Acesso em 29/08/2021 https://abralic.org.br/anais/arquivos/2018_1547507094.pdf