Leolinda Daltro e o Partido Republicano Feminino

Leolinda Daltro

A baiana Leolinda Daltro nasceu em 1859. Sua mãe era índia tupinambá e seu pai, português. Casou cedo, como era costume na época. Do seu primeiro casamento nasceram dois filhos, mas se separou e decidiu estudar para se tornar professora, afinal, ela também tinha que trabalhar para manter o sustento de casa. 

Em 1883, por volta de seus 24 anos, Leolinda Daltro se casou novamente e partiu para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Do novo casamento, ela teve mais três filhos, mas logo se separou — ou ficou viúva, não sei direito. O que sei é que essa mulher desquitada, nordestina e mãe de cinco filhos fez muito barulho em sua época e teve muita coragem para se posicionar pelo direito ao voto feminino e por uma educação laica aos povos indígenas. Isso quer dizer que, para ela, os índios deveriam ser alfabetizados e educados sem incluir questões religiosas, ao contrário do que acontecia na época, já que a alfabetização dos indígenas ainda era totalmente atrelada à catequização cristã.

Por causa de suas ideias e seus posicionamentos, ela recebeu o apelido de “Mulher do Diabo”. Diabólica porque ela era uma mulher separada, o que era considerado pecado em um país tão católico quanto o Brasil, porque ela propunha a incorporação social e a alfabetização indígena sem a atuação da Igreja, e porque ela circulava em ambientes majoritariamente masculinos e se posicionava politicamente. Tudo isso fez com que suas ideias se tornassem uma ameaça aos que estavam no poder, afinal, Leolinda Daltro exigia a inclusão das mulheres no processo de decisão política do país. 

Naquela época, o país estava passando por intensas transformações, e Leolinda Daltro se comprometeu em participar das escolhas dos novos rumos da sociedade brasileira. As primeiras causas seriam a indígena e a educação.

Para isso, em 1896, Leolinda Daltro partiu rumo ao interior do país, levando a alfabetização laica às aldeias indígenas, com uma proposta inovadora. Na época, o debate público em torno das populações indígenas compreendiam duas correntes principais: ou o apoio à catequização acompanhada da aculturação, ou o apoio à eliminação das populações indígenas. Não é de se espantar que a proposta de Leolinda Daltro provocasse também inúmeras polêmicas e posicionamentos contrários, o que não impediu seus esforços.

Leolinda Daltro deixou os filhos aos cuidados de parentes e viajou sozinha para São Paulo, onde conseguiu apoio financeiro de membros influentes da elite paulistana. Porém, quanto mais chegava ao interior, mais sentia resistência. Acontece que, sem querer, Leolinda Daltro havia comprado uma briga com a Igreja e com os grandes proprietários de terras.

Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, foi perseguida e escorraçada, sob gritos que ecoavam: “Mulher do Diabo! Mulher do Diabo”. De Minas Gerais, partiu para o sertão de Goiás, dando continuidade ao seu projeto. 

Em 1897, ela voltou ao Rio de Janeiro e fundou o Grêmio Patriótico Leolinda Daltro, para continuar defendendo os povos indígenas. E se era para fazer barulho, Leolinda Daltro também sabia como.

Representando a entidade recém-criada, a professora participava de diversas solenidades oficiais levando consigo alguns índios a fim de ganhar mais espaço na imprensa, o que de fato acontecia.

Mas Leolinda Daltro não defendeu apenas a educação laica dos índios e a incorporação dos mesmos à sociedade. Outra grande causa da professora era a luta pela cidadania plena das mulheres, especialmente em relação ao direito de voto.

Quando Leolinda Daltro se mudou para o Rio de Janeiro, aos 24 anos, o Brasil era governado por uma monarquia enfraquecida, em um cenário no qual as ideias republicanas ganhavam cada vez mais espaço. A coroa não tinha interesse em acabar com a escravidão no país, por exemplo, e a campanha abolicionista se intensificava cada vez mais. Havia um movimento de transformação que já não podia mais ser barrado.

Em 1888, quando a situação já estava insustentável, a Lei Áurea foi assinada. No ano seguinte ocorreu a Proclamação da República, e a família real foi embora para a Europa.

Assim, o Brasil precisava de uma nova Constituição. Na constituinte de 1890, a discussão sobre as propostas em torno da extensão do direito ao voto para as mulheres não tiveram sucesso.

Os opositores do sufrágio feminino utilizaram argumentos variados. O deputado Serzedelo Correia sustentou que as mulheres não deveriam votar porque o exercício de direitos políticos ameaçava seus delicados sentimentos, bem como a conservação da família. Nessa linha de pensamento, o deputado Lauro Sodré, pelo estado do Pará, apoiou-se no positivismo para sustentar que as mulheres deviam dedicar-se apenas à família. Por outra vertente, o deputado catarinense Lacerda Coutinho sustentou que as mulheres não eram capazes em termos jurídicos porque não estavam sujeitas à convocação para lutar na guerra, a exemplo dos homens.

Em 1910, Leolinda Daltro fundou o Partido Republicano Feminino. O primeiro partido feminista do Brasil era composto por mulheres que não tinham direitos políticos, mas que estavam chamando atenção para isso, reivindicando um espaço. A luta pelo direito das mulheres ao voto já era uma conhecida companheira de Leolinda Daltro, mas naquele momento, a criação dessa organização, se tornou um convite à mobilização coletiva em prol da participação da mulher na política brasileira.

A importância de Leolinda Daltro está atrelada à sua atuação contestadora e ativa ao denunciar os problemas da sociedade brasileira da época. Dedicando-se a causas definidas, Leolinda Daltro sabia aproveitar a mídia, pois, mesmo que os jornais se posicionassem contra as suas reivindicações e das sufragistas brasileiras, lá estavam os jornalistas, dedicando matérias e fazendo coberturas sobre o assunto.

Em dezembro de 1916, Leolinda Daltro encaminhou à Câmara uma representação em nome do Partido Republicano Feminino, justificando:

“A grande maioria do professorado municipal desta cidade é constituído por mulheres. São elas que dão instrução aos futuros cidadãos, que têm sobre os ombros a difícil tarefa de preparo das novas gerações. Se a lei lhes deu tão grande responsabilidade; se o Estado reconhece a sua capacidade para tão alta função, qual seja a de educar e instruir a mocidade; se a Escola Normal, Oficial, lhes conferiu um diploma que lhes habilita para esse espinhoso mister — como admitir que esse mesmo Estado possa negar-lhes capacidade para a simples escolha dos que devam ser os representantes do país nas assembleias legislativas e nos altos postos da administração pública? É o maior dos absurdos.”

Leolinda Daltro não para por aí. Em 1917, o Partido Republicano Feminino liderou uma marcha pelo sufrágio no Rio de Janeiro, com participação de noventa mulheres. Em 1919, Leolinda Daltro se candidatou, em protesto, para intendente, o que seria a prefeita da época para o Rio de Janeiro. Tudo para divulgar ainda mais o movimento sufragista. Ela deu uma entrevista à Revista Feminina explicando sua candidatura:

“Como mulher que sou, com um sentido superior de altruísmo, tenho me preocupado com a necessidade de minorar o sofrimento humano e de se atingir uma melhor distribuição da Justiça.”

Apenas em 1932 as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto. Nesse momento Leolinda Daltro chegou a manifestar sua felicidade e declarar que já podia morrer após ver a luta pela emancipação feminina ser vitoriosa. Três anos depois, em 1935, ela faleceu em um acidente de carro, deixando como legado uma contribuição ímpar para a cidadania da mulher brasileira, bem como o fortalecimento das lutas feministas para as gerações seguintes, especialmente no que diz respeito às causas da mulher e da educação no Brasil.