Literatura digital

Ao longo dos anos, a literatura passou por mudanças em relação à evolução da escrita e dos meios de divulgação. Contada em romances, poemas, crônicas, entre outros gêneros; a literatura se popularizou por meio de publicações em jornais, revistas, folhetins, livros e, de forma mais moderna, no meio digital.

Diversas obras famosas da literatura brasileira foram publicadas inicialmente como folhetins – formato destinado à publicação sequenciada. Assim, a publicação nos jornais era feita por capítulos ou partes, como uma novela. Um exemplo de obra literária lançada em folhetins é “O Guarani”, de José de Alencar.

Os livros foram só foram se tornar populares anos depois, graças à evolução tecnológica, à popularização da leitura, aos incentivos fiscais (como isenção de imposto sobre o papel destinado à produção de livros), entre outros fatores.

Nos últimos anos, no entanto, os livros impressos vêm perdendo popularidade para os livros digitais (e-books), que surgiram como um novo formato e revolucionaram a leitura.

Os livros digitais, além de serem mais baratos que os livros impressos, possuem várias vantagens: não precisam ser transportados – já que estão embutidos em um celular, tablet ou computador; são fáceis de manusear e possibilitam acesso à multifunções, como dicionário, mudança de cor e luz para adaptar ao horário da leitura e conforto dos olhos, e muitas outras.

Graças a essa dinamicidade do livro digital, elementos próprios da tecnologia foram incorporados ao texto para aprimorar a experiência de leitura, como por exemplo os recursos visuais, sonoros e outras interações.

Assim, entende-se por literatura digital a obra literária elaborada especificamente para mídias digitais, ou seja, pensada para ser lida e usufruída em um dispositivo tecnológico. Nesse contexto, incorporam-se as ferramentas próprias das novas tecnologias, como animações, multimídia, hipertexto, construção colaborativa, entre outras.

A literatura digital está muito próxima das crianças e jovens da nova geração, uma vez que já crescem em contato com o contexto digital e os aparelhos eletrônicos.

A escritora de literatura infantil Giselly Lima de Moraes define literatura digital infantil como “uma obra multimídia, multimodal que convida a participação do leitor, que necessita e utiliza as possibilidades do meio digital, seja um celular, um tablet ou um computador, sobre o qual se pode lançar um olhar literário […] lugar intermediário entre o livro, com o jogo e o filme”.

É importante entender, ainda, que e-book (livro digital) e literatura digital são coisas diferentes. O e-book é uma versão digital do livro físico, enquanto a literatura digital usa recursos que não podem ser adaptados para o impresso, como imagens animadas, sons, design próximo de jogos eletrônicos e filmes, interação com o leitor etc.

Esse formato de literatura consegue alcançar outros níveis que não só ativam a imaginação do leitor, mas também prendem sua atenção e o transportam para dentro da estória, principalmente quando há recursos interativos, como quando o personagem se comunica diretamente com o leitor e, ainda, precisa da decisão dele para seguir o enredo.

Atualmente, existe uma discordância entre os especialistas quanto à nomenclatura “literatura digital”, uma vez que, até pouco tempo atrás, a literatura era a manifestação da linguagem escrita de forma artística e em meio físico. Agora, essa manifestação ocorre no meio virtual, recebendo recursos de outros formatos de entretenimento, como filmes e jogos. Por esse motivo, alguns entendem que a literatura digital é apenas uma “ficção digital”.

Essa concepção digital é uma área relativamente nova da literatura, não é popularmente divulgada, por isso é facilmente confundida com o simples formato digital do livro impresso (e-book). Além disso, não se trata de um produto de consumo democrático, porque fica restrito ao uso de aparelhos digitais e não envolve publicidade que o dissemine.

Os produtos da literatura digital também encontram entraves no custo de produção e distribuição, pois há uma grande aplicação de recursos financeiros para criá-los, devido a toda a tecnologia utilizada, o que implica um valor final maior.

Outro ponto que dificulta a disseminação e popularização da literatura digital é que, por se tratar de um produto que envolve tecnologia eletrônica, é necessário que seja atualizado para se manter compatível aos meios de distribuição. Desse modo, muitos livros e projetos acabam sendo retirados do mercado porque não foram atualizados por falta de recursos financeiros.

Apesar disso, existem livros e plataformas gratuitas de literatura digital. A crítica que se faz a esses produtos está na recorrente existência de publicidade (anúncios, propagandas) dentro do conteúdo. Como a literatura digital tem como público principal as crianças, a publicidade e uso de algoritmos para anúncios não é interessante, já que nem sempre os pais estarão por perto para supervisionar o acesso a sites de consumo ou serviços inadequados à faixa etária.

A solução para isso seria a conscientização quanto à qualidade do conteúdo digital, envolvendo mais a parte literária. Não se constrói um mercado de procura e ofertas somente com base no lucro, logo, apesar das despesas de criação do projeto, o principal cuidado que deve ser tomado é a mensagem a ser transmitida.

Para a criação de um produto de literatura digital é necessária uma equipe multidisciplinar, podendo envolver não só o escritor da história, mas também o ilustrador, ou melhor, designer gráfico; um compositor, além de outros profissionais capacitados em tecnologia.

Como já foi dito, a literatura digital possui características híbridas, o que a aproxima de um jogo ou filme. No entanto, a diferença é a forma como a estória, criação de personagens, interação com o leitor e os recursos visuais (criação e cenários lúdicos, criativos, etc) são relacionados.

A professora e escritora Giselly Lima de Moraes fala sobre essa mudança que ocorre na literatura digital, como, por exemplo, a exploração do tempo narrativo. A interação do leitor com o produto literário pode ocorrer de várias formas, logo, é possível que o personagem “combine” com o leitor um determinado horário para agir.

Além do tempo narrativo, a professora aponta a criação do ambiente em “Spot”. Em um produto de literatura digital há diversos universos lúdicos, diferentes da realidade comum, trazendo a ideia de “Cosmicidade”, pois os sons são cósmicos, os universos são mais próximos do surrealismo do que do realismo. Nesse infoproduto específico, não há textos, a construção não é linear, pois existem diversos universos que podem ser acessados pelo leitor, na ordem que ele quiser.

Outro elemento muito interessante na literatura digital é o som, que pode trazer emoções ao leitor. Esse recurso, apesar de existir nos livros físicos (com apitos e buzinas ou botões que narram a estória), não pode ser tão bem explorado como no digital.

A ideia de literatura digital é incrível, comunicativa e envolve o leitor em novos sentidos. No entanto, há importante desafios a serem enfrentados. A professora Giselly Lima entende que é necessário inserir a literatura digital nas escolas, principalmente públicas, para a formação e ensino das crianças com o letramento digital.

É preciso que as crianças aprendam a interpretar, interagir com esses elementos, a fim de criarem uma bagagem de símbolos para o aprendizado. Além disso, é preciso democratizar a distribuição dos conteúdos de qualidade, sempre priorizando a qualidade literária da obra digital e a relação dos elementos digitais multissensoriais com os elementos literários. Sempre oferecer esse conteúdo para as crianças pensando na mediação dos pais, professores e escolas, para que as mensagens passadas pela literatura sejam captadas da melhor forma pelas crianças.

Por fim, vale destacar que a literatura digital infantil é um passo importante para a evolução do ensino e leitura, dentro de um cenário cada vez mais informatizado.