Marielle Franco, presente!

“As mulheres negras, por exemplo, quando passam na rua, ainda ouvem homens que têm a ousadia de falar […] como se a gente estivesse no período de escravidão. Não estamos, querido! Nós estamos no processo democrático! Vai ter que aturar mulher negra, trans, lésbica, ocupando a diversidade dos espaços”.

Marielle Franco em seu último discurso em Assembleia, uma semana antes de ser executada em 2018 no Rio de Janeiro.

Marielle Franco era mãe, negra, homossexual, socióloga e política.

Nasceu e viveu a vida toda no Morro da Maré. Fazia parte do seu cotidiano tanto as batidas do funk, como a violência que se impõe junto a vulnerabilidade dos seus moradores, na maioria negros e negras. Sua vontade de atuar na política foi aflorada pelas desigualdades cotidianas vivenciadas na comunidade.

Em 2002, graduou-se em Ciências Sociais pela PUCRJ e, mais tarde, concluiria o mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense. Sua carreira política começou em 2006, integrando a equipe de campanha de Marcelo Freixo, posteriormente atuando como assessora dele por dez anos.

Marielle Franco sempre defendeu o Feminismo e os Direitos Humanos. Depois de um tempo atuando em diversos projetos e equipamentos sociais na área de gestão, organização e atendimento, Marielle inclui mais uma abordagem.

Candidatou-se para o cargo de vereadora na cidade do Rio de Janeiro em 2016, terminando sua primeira eleição ocupando o quinto lugar no número de votos.

Na luta pelos direitos dos cidadãos, Marielle Franco denunciava os abusos das autoridades policiais nas favelas. Atuou em campanhas em defesa das comunidades ao se opor à utilização do “Caveirão” pela polícia, por exemplo, veículo que embora ajude os policiais, reforça ainda mais a violência psicológica que incide sobre os moradores e moradoras das favelas.

Quando eu me entendo aonde eu estava, que eu não estava só no subúrbio, que eu não estava só na zona norte do Rio de Janeiro, mas que eu tava dentro de uma favela. Em uma favela onde eu perdi e vi perder amigos. Então, é uma construção política de uma Marielle dentro daquilo ali, e que poderia perder a vida a qualquer momento.

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Marielle Franco empenha sua luta pela emancipação da mulher negra e favelada, questiona os padrões heteronormativos impostos na sociedade, partilha saberes junto a outras mulheres negras da favela.

Com toda a sua atuação na defesa dos direitos humanos e contra a violência nas comunidades, ter sido eleita em sua primeira candidatura à vereadora do Rio de Janeiro, nada mais foi do que o reconhecimento de todo seu trabalho.

Mas ainda há muito a se fazer.

Pra entender hoje o lugar das favelas, tem que haver um diálogo com o que foram os quilombos. Para entender hoje o que é o feminismo negro atual, tem que passar pele histórico das mulheres, do que foi a luta das mulheres, mas ampliando para esse conceito.

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Nossos desafios atuais também passam pela construção de nossa história.

Nosso país enfrenta hoje as consequências do crescimento de um conservadorismo que nega a identidade negra, questiona as reparações históricas e não reconhece o racismo estrutural.

Marielle Franco conhecia a importância de se articular com outras mulheres negras da periferia para avançar em suas pautas, mas não pôde dar continuidade ao seu trabalho.

Em 14 de março de 2018, Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro Mathias Gomes foram assassinados a tiros no Rio de Janeiro.

Mas, toda vez que assumimos essas pautas como nossas, estamos mantendo Marielle Presente!, mantendo vivo e ativo o seu legado.