Moda sem Medida

Epidemias e pandemias que marcaram a história

Grandes epidemias e pandemias marcaram a história da humanidade e dizimaram diferentes povos, atingindo o homem da Antiguidade à fase contemporânea. Em 430-427 a.C. a Peste de Atenas causou a morte de cerca de 35% da população. A Peste Negra (1347-1353), ou peste bubônica, dizimou cerca de 1/3 da população europeia, e com o passar dos séculos outras epidemias e pandemias também provocaram milhares de mortes. Mas também com o passar dos séculos, aprendemos a lidar com elas a partir da ciência.

Eu diria que a história da humanidade, se quisermos nos concentrarmos nesse conceito, é um pouco as histórias das epidemias, porque se nós formos analisar os últimos 2.500 anos e começarmos a analisar as epidemias que ocorreram no império romano, por exemplo, as epidemias que ocorreram no mundo grego, as primeiras epidemias que têm registro, algumas nós temos registros muito pouco preciso. Mas assim, deste a Peste Antonina, que ocorreu em Roma, que provavelmente era varíola e várias que foram ocorrendo ao longo dos séculos, até as grandes pestes, as chamadas pestes negras na segunda metade do século 14, foram um enorme aprendizado. Foram um enorme aprendizado, inclusive, interessante, porque eu sempre tenho dado esse exemplo de como os governantes podem se comportar de maneira, digamos, não só solidária, mas eficiente com a população. E um dos exemplos clássicos, que podem se comparar com o mal comportamento de alguns governantes também na pandemia atual, foram os governantes italianos da área da Lombardia, que nós sabemos que na Covid-19, devastou a Lombardia na área de Milão. Naquela ocasião, no final do século 14, os governantes de Milão, na época, os grandes Duques de Visconde, pessoas que a história chama de Senhores naquela época, foram inteligentíssimos. Eles viram que a pandemia estava se aproximando da região e reuniram a aristocracia e povo juntos, emanados e fizeram cinturão sanitário na cidade e a epidemia não entrou em Milão. Milão foi protegida da peste. Foi a cidade menos comprometida. 

Margareth Dalcolmo

Então, isso demonstra que as medidas ditas hoje não farmacológicas, isto é, comportamento pessoais, uso de máscaras, todo mundo se lembra daquela máscara, aqueles chapéus, eram pela pestilência do ambiente. Não tinha nenhum saneamento, nada. Foram várias epidemias que ocorreram na segunda metade do século 14. E aquilo gerou não só uma literatura riquíssima, a começar pelo Decameron, pelo Bocaccio e vários registros da literatura, mas gerou o renascimento. Então, assim, o homem é capaz de, diante das catástrofes mais graves, gerar alguma coisa boa, né? Então, assim, nós não podemos perder completamente nossa esperança. Eu sou muito obstinada. Eu continuo acreditando no ser humano.

Margareth Dalcolmo

A humanidade passou por um período de sofrimento físico, psicológico e material, e essa experiência já deixou sequelas em quem se salvou de um destino ainda mais cruel. 

Aprendemos sobre a importância do SUS, e apesar de faltar incentivo às políticas de saúde baseadas em ciência, os profissionais da saúde, especialmente os da linha de frente, enfrentaram a catástrofe, se expuseram ao risco e fizeram o melhor que puderam dentro das possibilidades disponíveis. Isso tudo é razão mais do que suficiente para valorizar o SUS, os profissionais de saúde, bem como seguir as orientações da ciência.

Felizmente o histórico de vacinações no Brasil pesou a favor da ciência, apesar das  campanhas de desinformação.

Eu acho que em relação a esse preparo da nossa população, do ponto de vista, eu diria, antropológico, sociológico, enfim, social mesmo, eu acho que nós fomos apanhados de uma maneira muito despreparada no Brasil para enfrentar a pandemia e eu acho que o primeiro aprendizado que a pandemia da Covid-19 deixa para o Brasil é que isso nunca mais pode acontecer, nunca mais. Nós temos que nos preparar. Essa não será a última epidemia de nossas vidas, haverá outras, seguramente e o Brasil não pode ser apanhado. Desde o início, ficou claro e eu disse isso e vários colegas também disseram, que a nossa grande arma seria o nosso SUS e foi. Em todo seu desmantelamento, esvaziamento de recursos humanos, tudo o que nós sabemos foi o SUS que de certa maneira, segurou. E a segunda arma era o distanciamento físico mesmo, porque a gente sabia desde o início que uma doença de transmissão respiratória e aguda com essa taxa de transitabilidade, desde o início, estava claro para todos que nós precisaríamos usar essas duas armas poderosas. Então, eu acho que esse foi o grande aprendizado. 

Margareth Dalcolmo

O que chama atenção é a diferença social de como as coisas ocorreram no Brasil. O Brasil teve uma letalidade muito alta, muito acima do que seria esperado para um país como o nosso. E isso, de alguma maneira, reflete a desigualdade social no Brasil. Quer dizer, a mortalidade foi maior entre os mais pobres. Aliás, isso aconteceu também em países ricos, como os Estados Unidos, onde não tem SUS, devo dizer. E por essa razão, quem não teve condições de ir ao hospital, morreu sem assistência, como nós sabemos. Então, no Brasil, seguramente, é muito trágico que nós vejamos que populações muito desvalidas, com pouco acesso aos serviços de saúde ou populações mais vulneráveis, como por exemplo, ocorreu em áreas indígenas no Brasil. Então, historicamente, a Covid-19, na verdade, reflete essa desigualdade social histórica do Brasil, que tem que gerar necessariamente, um aprendizado para que possamos enfrentar futuras epidemias com um pouco menos de despreparo, eu diria.

Margareth Dalcolmo

O Brasil já tem uma tradição de mais de 200 anos com a vacina. Em 1804, a vacina contra a varíola chegou ao país. 30 anos depois a imunização contra a varíola se tornou obrigatória, fator decisivo para a superação da doença.

Entre 1900 e 1901, foram fundados o Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro, hoje Fiocruz; e o Instituto Serumtherápico, hoje Instituto Butantan.

Em 1904 ocorreu a Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em oposição à obrigatoriedade da vacinação contra a varíola. Nem por isso a vacinação parou. Em 1927, começou a vacinação da BCG contra a tuberculose, anos mais tarde a febre amarela urbana foi eliminada também pela vacina.

Desde 1973 o Brasil possui o PNI, Plano Nacional de Imunizações e o seu primeiro calendário básico data de 1977. O Zé Gotinha, nasceu em 1986 e em 1995, substituímos a vacina monovalente contra o sarampo pela tríplice viral, que imuniza contra o sarampo, a caxumba e a rubéola. Vacinas contra o tétano, a gripe, a catapora entre outras foram incluídas na vacinação no Brasil. Com a Covid-19, no entanto, a vacinação deu um salto científico.

Em relação às vacinas, eu diria que as vacinas para Covid-19, ao meu ver, são a maior descoberta na área biomédica das últimas duas décadas, pelo menos. Porque se nós considerarmos que uma vacina tradicionalmente pode levar até dez anos para ser colocada em prática de uso clínico, em menos de um ano, mais de 100 grupos pesquisando nos cinco continentes, sem burlar nenhuma etapa metodológica nem eticamente, terem conseguido criar plataformas novas, resgatar plataformas antigas que haviam sido testadas para outras doenças, como Dengue, Chikungunya, Ebola e não funcionaram. E resgatar todo esse conhecimento e produzir vacinas a ponto de serem usadas em menos de 1 ano, isso é algo extraordinário. E não há dúvida, os mais céticos, os mais, digamos, que reagiram contra a ciência, que fizeram discursos nocivos à sociedade, como nós sabemos que houve, mas que graças a Deus não contaminaram tanto os brasileiros, porque nós temos uma tradição muito incorporada na cultura brasileira de acreditar nas vacinas, ao contrário de outros países, mesmo países desenvolvidos. Hoje nós vemos países como a França, imagina, o berço do iluminismo, você tem 35% da população que não quer se vacinar ou a Alemanha, que está jogando vacina fora, porque está perecendo. 

Margareth Dalcolmo

Então, as vacinas foram uma descoberta extraordinária, porque elas salvam vidas. O que está controlando hoje as mortes e os casos graves de Covid-19, não há dúvida que é as pessoas estarem vacinadas. O que não é aceitável, com essa descoberta extraordinária a qual eu me referi, é esse apartheid vacinal, essa desigualdade. De novo o mundo e a sua desigualdade iníqua estão mostrados na questão das vacinas. Não é possível que o mundo tenha 62% da população do planeta vacinada e que isso se distribua de uma maneira tão desigual. Então, se o Brasil tem hoje 80% da população vacinada com duas doses, nós temos gente aqui pertinho, tem o Haiti, aqui perto de nós, que não tem 10% da população. Países africanos que não tem nem 5%. Então, essa dinâmica da desigualdade de novo nos deixa muito constrangidos frente a essa extraordinária descoberta científica. 

Margareth Dalcolmo

Eu acho que o Brasil em relação a esse momento presente, nesse corte atual e a perspectiva de futuro em relação à pandemia, eu acho que o Brasil conseguiu com todas as adversidades, com todos os erros cometidos, todas as tensões desnecessárias, sob as quais nós convivemos, a falta de uma coordenação homogênea centralizada, uma tensão permanente entre o discurso oficial e o discurso da comunidade acadêmica brasileira, que aliás, foi muito presente, consistente, pujante, com tudo o que nós sabemos. Eu acho que nós conseguimos uma coisa boa, resgatando a tradição brasileira de acreditar nas vacinas. Primeiro, os dois institutos brasileiros públicos de grande porte como o Butantan e a Fiocruz foram capazes de produzir vacinas, então, hoje, através da Fiocruz, onde eu trabalho, o Brasil é um país autônomo em vacinas para a Covid-19. A Fiocruz tem perfeita capacidade de produzir de 25 a 30 milhões de doses por mês, o que daria perfeitamente autonomia para o Brasil e eventualmente até de colaboração com nossos países vizinhos. Então, isso foi um efeito extraordinário. Eu acho inclusive que isso dá uma tranquilidade para nós em relação a uma eventual necessidade de vacinar ou fazer novos reforços nos próximos meses ou no próximo ano. 

Margareth Dalcolmo

Apesar de ter feito parte de círculos de amizade que incluíam imortais da academia brasileira de letras, e de seu falecido marido, Cândido Mendes de Almeida (1928-2022), ter sido também um dos integrantes da ABL, Margareth se interessou pela literatura bem antes disso.

Desde menina ela já lia muito, e talvez naquela época ela não imaginaria que lançaria um livro.

Um tempo para não esquecer”, narra a experiência de Dalcolmo durante a pandemia, das repercussões clínicas, dos impactos sociais e dos esforços da comunidade científica para encontrar vacinas contra a Covid-19. O livro reúne os artigos escritos semanalmente para o jornal O Globo, documentando a visão da ciência sobre a pandemia.

O livro na verdade é uma contribuição que eu pretendo deixar para aqueles que se interessarem. É um livro para leitores leigos, digamos. Um livro que tem muitas informações sobre as histórias das epidemias, sobre a história da pandemia da Covid-19 e muitas relações literárias que fazem sempre um estilo que eu tenho de registrar  aquilo que eu escrevo. Não é um artigo médico, naturalmente. Então, no livro, na verdade, eu reuni todos os artigos que eu publiquei com alguns cortes, por causa do espaço do jornal, que eu publiquei no Jornal O Globo, no qual eu venho escrevendo nos últimos dois anos. Então, eu editei os arquivos originais e o livro é isso: um traço cronológico desde o início da pandemia, porque eu participei desde o primeiro momento, assessorei o grupo do Ministro Mandetta, no início de março de 2020 e todo esse registro, eu pude fazê-lo até o final do ano passado. Então, eu brinco que o meu livro é Pré-Omicron. Agora, eu precisarei escrever uma edição revisada Pós-Omicron, certamente. 

Margareth Dalcolmo

Então, escrever o livro foi uma experiência extremamente prazerosa para mim. Não apenas porque eu gosto muito de escrever. Eu sempre escrevi muito. Eu anoto tudo que eu costumo fazer, que eu costumo ouvir. Então, assim, isso vai juntando, vai reunindo muitas informações de natureza factual e algumas reflexões que eu tenho como alguém que pensa literariamente de certa maneira. Não só a experiência médica, mas a experiência humana, que é aquela que nos fascina, né? 

Margareth Dalcolmo

Margareth Dalcolmo é membro do Expert Committee on the Selection and Use of Essential Medicines, da Organização Mundial da Saúde, um grupo de 18 peritos que fornece recomendações à OMS quanto à aprovação de fármacos essenciais. Mas, para fazer recomendações ao público, Margareth não precisa de um convite a um grupo de membros, seu histórico de trabalho e pesquisa falam por sí. A orientação para o público, no que concerne ao combate à pandemia da Covid-19, sempre foi a mesma: o uso de máscaras, o distanciamento social e a vacinação.

A maior parte da população atendeu ao pedido, mesmo com os negacionistas da vacina. Dalcolmo não desistiu de continuar levando informação científica ao público geral.

O reconhecimento de seu trabalho foi acentuado com prêmios e honrarias. A primeira dose de Astrazeneca coproduzida pela Fiocruz foi aplicada no braço da pneumologista, um símbolo forte para lembrarmos que lutar pela vida e pela ciência, tem que valer a pena.

Margareth Dalcolmo

“As grandes bailarinas têm muito prazer no que fazem, mesmo com o pé todo machucado. Para nós, médicos, é mais ou menos assim”.

A analogia é da médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo, um dos ícones da ciência brasileira no combate a Covid-19.

Em entrevista ao Mulheres de Luta, Dalcolmo contou um pouco sobre sua história, percepções da saúde no Brasil e experiência como cientista durante a pandemia.

“Eu sou Margareth Dalcolmo. Eu sou médica e tenho 41 anos de formada. Sou formada pela Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, onde estudei os meus anos de universidade até o 5° ano. Depois terminei no Rio de Janeiro e aqui fiquei, onde fiz toda a minha formação, onde havia passado a minha infância. 

Eu venho de uma família com muita pouca tradição médica. Minha família é uma família de juristas. Pai, irmã, tias, avós. De modo que eu fui criada em um ambiente que não tinha tanto estímulo para ser médica. Mas eu sempre tive jeito de lidar com as pessoas, embora fosse uma criança muito reservada, muito estudiosa. Gostava de ler, não gostava de praticar esportes. Não era uma criança muito sapeca, como costumam ser as crianças. 

Eu havia passado toda minha adolescência dizendo aos meus pais que eu iria ser diplomata, porque eu sempre li muito, eu tinha muito interesse. Eu cresci com o Mapa Mundi no meu quarto, onde eu botava uns alfinetinhos coloridos. Eu dizia, “Eu vou aqui, eu vou ali”, ao longo da vida. Depois ao longo da vida, eu pude ir fazendo um pouco isso pelas minhas andanças pelo mundo, seja trabalhando, seja conhecendo. Aos 17 anos e meio, eu tive uma reflexão bastante madura para uma adolescente e disse aos meus pais que eu não seria diplomata. O Brasil estava em um momento difícil, era o governo militar. Muitos amigos e colegas meus estavam sendo presos, inclusive. Eu disse, “Eu quero ser médica.” Meus pais ficaram um pouco surpresos, porque eu vinha de uma formação de humanas. Eu não vinha de uma formação de exatas. E mesmo assim, eu disse “Eu já resolvi o meu problema. Eu vou ensinar aos meus colegas as áreas que eu sou mais forte, eles vão me ensinar onde eu sou mais fraca.” 

E assim foi. Eu passei muito bem no vestibular e nunca tive um momento de hesitação. Eu sempre adorei tudo o que fiz e eu fiz bastante coisa ao longo desses 41 anos, enfim. Descobri muitas coisas, descobri talentos que não sabia que tinha, enfim. Tive belos exemplos ao longo da minha formação médica, tive belas inspirações, eu diria. E sem dúvida nenhuma, uma formação que hoje me deixa à vontade para ensinar, para refletir junto com os meus jovens. E essa é a contribuição que eu espero estar fazendo neste momento.”

De acordo com o UNFPA, Fundo de População das Nações Unidas, houve predominância das mulheres na força de trabalho da saúde, especialmente na linha de frente ao combate da Covid 19. Segundo o IBGE, 65% dos mais de seis milhões de profissionais atuantes no setor público e privado de saúde são mulheres. Em carreiras como fonoaudiologia e nutrição elas ultrapassam 90%. 69,2% dos profissionais da administração direta da área da saúde do Brasil são mulheres. Essas são as profissionais com as quais Margareth Dalcolmo convive em seu dia a dia de trabalho. Desde criança, Margareth teve muitas referências femininas  em sua vida, seja no cotidiano ou em posições de destaque que estimulavam os sonhos de outras meninas.

Eu tive muitas mulheres inspiradoras, não apenas na ciência. Na literatura, por exemplo, eu sou de uma geração que lia quase como uma cartilha de reflexão humana. Autoras como Simone Beauvoir. No Brasil, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector. Então, essa literatura feminina foi muito forte na minha formação. E das mulheres cientistas, eu sempre tive uma paixão, eu dizia brincando mais nova que eu poderia ir naqueles programas de televisão responder aquelas perguntas de sabatina sobre a vida da Marie Curie, que foi um exemplo enorme pra mim, uma mulher extraordinária, fora do tempo, enfim. Prêmio Nobel duas vezes. Depois também um outro Prêmio Nobel mulher que é a Professora Rita Montalcini Levi, uma grande neurocientista italiana. Uma mulher extraordinária que viveu até os 103 anos. E no Brasil, eu tive e tenho colegas extraordinárias, mulheres. Só para dar outros exemplos mais recentes, agora durante esse papel na Covid-19, virologistas como a Professora Esther Sabino, como a Professora Marilda Siqueira, da Fiocruz. São mulheres de uma força, de uma dedicação ao que fazem. E colegas minhas, contemporâneas, que são não só contemporâneas, como são exemplos pra mim. Então, todos esses, eu diria sem nenhum temor de ser retórica, tantas mulheres que tem trabalhado de maneira quase anônima e que tem de mim a minha total admiração. Ao longo desses dois anos de pandemia, eu vi, eu participei, eu visitei muitos trabalhos grandes, seja pela Fiocruz, seja por outras iniciativas e vi mulheres incríveis, profissionais de saúde, médicas trabalhando em projetos de grande envergadura, em comunidades carentes e assim, com uma dedicação. Então, eu diria assim, sempre que eu posso, eu dedico a essas quase anônimas, um exemplo que são muita inspiração para os mais jovens, sobretudo.

Sexualidade na vida das mulheres depois dos 70

A menopausa ocorre nas mulheres em um período que oscila entre os 45 e 55 anos de idade. Essa fase é caracterizada pelo encerramento da menstruação, correspondendo ao momento em que a mulher menstrua pela última vez.

Em alguns casos, a menopausa ocorre antecipadamente, por volta dos 40 anos, por exemplo. Nesse caso, ela é chamada de menopausa precoce.

O climatério é o período que compreende o intervalo entre a fase reprodutiva e a não reprodutiva da mulher. É o período que se inicia um pouco antes da menopausa, e perdura até um pouco depois dela.

Nessa etapa da vida da mulher, ela pode sentir diversos sintomas em decorrência dessa variação hormonal. Ondas de calor, alterações no sono, no humor e até variações na libido são alguns dos traços sentidos durante essa fase.

É a partir desse momento que diversas variações começam a ocorrer no corpo feminino. Mas isso está longe de representar ausência de atividade sexual na vida da mulher.

É inevitável que, conforme envelhecemos, diversas alterações ocorrem em nossos corpos. Na melhor idade, as alterações hormonais estão relacionadas à diminuição dos níveis de estrogênio e isso sem dúvidas pode afetar a sexualidade das mulheres, impactando em variadas disfunções sexuais.

No entanto, esse não é o único fator que influencia a sexualidade feminina nessa etapa da vida. Além dos fatores biológicos, outras condições como contexto social, cultural e religioso, por exemplo, também contribuem para alterações relacionadas à sexualidade na terceira idade.

No contexto sociocultural, por exemplo, podemos abordar a relação que a mulher tem com seu próprio corpo.

A sexualidade não se limita às práticas sexuais, mas também envolve as atitudes gestuais e disponibilidade física, não no sentido performático, mas com relação ao ato de se sentir à vontade com o próprio corpo. A relação com a autoimagem e as interações afetivas complementam esses fatores.

Além disso, a relação sexual vai muito além da penetração.

Geralmente, os homens têm mais dificuldade para compreender isso, dadas as pressões sociais que a sociedade impõe sobre a virilidade masculina. No caso das mulheres, o maior problema que elas enfrentam está relacionado ao tabu na hora de compreender a importância de se tocar. 

Sendo assim, um dos pontos que devem ser valorizados na sexualidade entre as mulheres depois da menopausa é a relação que podem ter com o próprio corpo a fim de se sentirem bem redescobrindo o prazer sozinhas.

Este artigo salienta a importância da sexualidade na terceira idade, bem como a relevância do seu estímulo para uma vida mais sadia e significativa.

O artigo também pretende desmistificar a ideia de que a sexualidade acaba na velhice. Diversas mulheres na casa dos 70 anos demonstram que a crença da diminuição do prazer sexual na melhor idade é uma visão ultrapassada.

Mudanças de paradigmas sobre a melhor idade

“Tem tantos mitos… Hoje em dia vivemos em um mundo no qual as mulheres de 65 anos são as de 20 anos de um século atrás. Idade é algo muito relativo.” 

(Sônia Braga, 70 anos)

O Jornal do Commercio de 4 de agosto de 1960 publicou uma notícia trágica sobre um acidente envolvendo um ônibus que entrou na casa de Maria Oliveira. Mas não foi o acidente que chamou a atenção da web. A notícia viralizou 60 anos depois devido ao teor do seu título.

O Jornal do Commercio é um senhor de 114 anos de existência. Ele costuma publicar edições passadas, mas a viralização aconteceu a partir do compartilhamento do advogado Pedro Lindoso que, em sua página do Facebook, brincou: “Se ela era ‘velhinha’ com 42 anos, então eu, com 61 anos, seria um ancião decrépito?”.

Pedro Lindoso ainda comentou: “O interessante é que todo mundo achou curiosa a ‘velhinha’ de 42 anos. Eu tenho 61 anos e me considero um garotão. Pra você ver como as coisas mudam. Quando eu era criança, achava uma pessoa de 50 anos, ou até menos, velha”, lembrou.

De acordo com o livro “Brasil: uma visão geográfica e ambiental do início do século XXI” do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1900 a expectativa de vida do brasileiro era de 33,7 anos, em 1960, ano da publicação da matéria, era de 52,5 anos e em 2020 foi para 76,7 anos. 

Isso demonstra as transformações que ocorreram no Brasil com relação à visão que temos sobre a velhice.

Daqui a mais 60 anos, será que matérias que se referem às mulheres de 70 anos como “velhinhas” causarão a mesma reação?

Rompendo tabus

“A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos. Enquanto a sexualidade pode incluir todas essas dimensões, nem todas elas são sempre vivenciadas ou expressas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais (OMS, 2006).”

A definição da Organização Mundial de Saúde reforça que a sexualidade envolve inúmeras dimensões, ou seja, vai muito além da penetração ou do ato sexual em si. 

Entendendo isso, o próximo passo seria romper com o tabu que muitas mulheres ainda têm sobre a masturbação. 

A sociedade no geral condena essa atitude, uma vez que existem visões culturais e religiosas com relação ao sexo que salientam que ele deve ocorrer apenas para fins reprodutivos. Muitas mulheres por conta dessa perspectiva ainda condenam a atividade sexual por puro prazer. 

Na esteira desse pensamento, muitas mulheres ainda não se sentem à vontade para se masturbarem, resultado de uma crença que nos foi incutida desde a infância.

É importante entender que a masturbação não envolve apenas a estimulação dos órgãos íntimos, mas a redescoberta do próprio corpo, do autocuidado e da autoestima.

O corpo muda com o passar dos anos. Esse autocontato ajuda a receber esse corpo que está em constante transformação, redescobrindo também outras formas de sentir prazer.

Como cuidar da sexualidade na melhor idade

“Uma vida sexual regular tem a ver com saúde. Além de ser saudável, é prazeroso. Relaxa”. 

(Zezé Motta, 76 anos, em entrevista para a Revista Quem)

Se por um lado as alterações fisiológicas afetam a libido, por outro é importante contornar esses sintomas realizando visitas médicas periódicas.

Mas para isso, é preciso romper outra barreira: a do pudor em falar sobre o assunto.

O rompimento da inibição ao falarmos sobre sexo é o primeiro fator que contribui para o estímulo da sexualidade na melhor idade. Aos poucos, conforme essa inibição é rompida, os tabus também são trabalhados.

A socialização é outro fator relevante. Participar de passeios, viagens, eventos, entre outros, contribui para a saúde física, social e psicológica.

A prática de atividades físicas regulares e uma alimentação adequada também contribuem para amenizar os sintomas provocados por fatores fisiológicos, além de melhorar a saúde e o bem estar.

Atualizando as perspectivas sobre sexualidade na melhor idade

“Os que acham que não existe sexo na velhice são jovens, mas, quando chegarem a essa idade, irão ver que é diferente. Quem pensa assim vai ver quando envelhecer que esse pensamento se resume a uma palavra só: preconceito. E de preconceito já estamos cheios. Está na hora de mais uma vez lutarmos contra isso de fato.”

(Fernanda Montenegro, 91 anos, para o site M de Mulher)

Em 2017, Joyce de 82 anos, Shirley de 61 e Dee de 69, concederam uma entrevista ao programa Daily, da rádio BBC 5 Live para falar sobre a sexualidade na terceira idade.

O programa também realizou uma enquete que constatou que a maioria das pessoas entre 60 e 70 anos mantém relações sexuais regulares.

As três mulheres também apontaram que consideram o orgasmo muito melhor em suas fases atuais do que quando eram mais jovens. Uma das entrevistadas atribuiu isso ao conhecimento do próprio corpo. Nessa fase, ela adquiriu maior autoconfiança e menos preocupação com as opiniões dos outros. Essa alteração no pensamento surgiu quando entrou na terceira idade.

A descoberta de novas posições sexuais e possíveis constrangimentos na cama são encarados por elas com humor, fazendo da atividade sexual algo divertido, sem a expectativa de transformar a relação em uma performance.

Uma das observações feitas por elas sobre o sexo quando mais jovens está relacionada à preocupação com a beleza. Quando mais velhas, o contato humano se tornou mais importante do que a preocupação com a aparência, tirando aquela pressão que às vezes ocorria na relação sexual.

Uma delas apontou que a excitação e o prazer são os mesmos, embora com uma taxa hormonal menor. Mesmo sem um parceiro, outra observação apontada foi em relação à masturbação, que se tornou uma forma de sentir prazer consigo mesma.

Como percebemos, as transformações históricas, sociais e culturais, aliadas às mudanças fisiológicas da terceira idade são fatores que precisam ser observados em conjunto quando falamos sobre as alterações na sexualidade  nessa etapa da vida.

Ao contrário do que a sociedade pensa, a atividade sexual na melhor idade é regular, ou pode ser regular, mesmo com as influências fisiológicas provocadas pela queda hormonal.

Manter uma prática sexual é saudável e para isso não estamos falando necessariamente de penetração. A masturbação é uma prática que deve ser estimulada, especialmente nessa fase da vida, pois ajuda a promover uma nova forma de contato e prazer com o próprio corpo.

Mas muitas mulheres ainda precisam enfrentar seus tabus e para isso é importante mantermos aberto o diálogo.

O cuidado com a sexualidade contribui para a autoestima, a socialização e a saúde física e emocional.

As festas juninas ao longo dos séculos

“O São João é uma festa completa. Ele não é uma festa como o carnaval. No Carnaval você vai, você dança, você se diverte e acabou. O São João tem todo um conjunto de símbolos ali dentro (…) que é a comida típica, a comida de milho, as bandeirinhas, as quadrilhas, o forró, o vestir, as brincadeiras.”

Assim observa Zulmira Nóbrega, doutora em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia, em entrevista ao Mulheres de Luta.

Zulmira Nóbrega também reforça a questão dos hibridismos nas festas tradicionais, salientando que não existe algo totalmente puro e genuíno, que seja apenas de uma única localidade, país, ou grupo de pessoas. Zulmira Nóbrega reforça que para haver cultura, deve haver mistura.

Na entrevista, a doutora aborda diversos assuntos, entre eles a relação das comidas nas festas de São João, especialmente quanto a presença do milho, alimento tradicional das festividades juninas brasileiras.

O milho, que está cada vez menos presente nas Festas de São João, tem seu espaço ocupado pela pizza italiana ou pelo yakisoba chinês, trazendo para a discussão uma reflexão sobre os caminhos da modernidade, e seu impacto nas festividades tradicionais.

Transcrição da entrevista:

Vamos começar com a questão do hibridismo, a questão das comidas. O São João é uma festa, mas ela é uma festa completa, ele não é uma festa como o carnaval, o carnaval você vai, você dança, você se diverte e acabou. 

O São João, ele tem todo um conjunto de símbolos ali dentro que perpassam, que é a comida típica, a comida de milho, as bandeirinhas, que são as quadrilhas, que é o forró, que é o vestir, são as brincadeiras que também são categorizadas, vamos pensar assim.

O que eu penso especialmente sobre o hibridismo, que são necessários, que é a forma que eu percebo a identidade é uma identidade híbrida, não existe algo que seja puro e genuíno de uma só localidade, de país, ou de pessoa, elas se misturam, se mistura porque só há cultura quando há essa mistura, essa troca de cultura.

Por exemplo, com relação à comida de milho, as pessoas chegam no parque, “aqui não é mais um São João como era”, como é que você não vê a questão de vender pamonha, no parque não tem comida de milho, as pessoas, é uma crítica que se faz muito à questão do parque do povo não ter comida de milho.

Mas assim eu percebo comida de milho ou pamonha, ela não é na verdade um acompanhamento de bebidas alcoólicas, que é o que acontece a partir das 10 horas quando o parque é aberto, oito, dez horas, ninguém vai tirar como tira gosto, por exemplo, uma pamonha ou uma espiga de milho. 

Aí as pessoas reclamam, por exemplo, aí a questão do globalismo, que você tem pizza que é italiana, você tem o crepe francês, você tem yakisoba chinês e você quase não tem comida de milho, então quando a gente diz assim: eles se misturam ali no parque do povo.

Desse hibridismo que eu falo das questões que uma coisa para existir não elimina a outra, elimina a modernidade e a modernidade vai tá eliminando a tradição, que elas correm por caminhos diferentes, alguns momentos elas se cruzam.

A gente pensa muito como ali na teoria crítica, com o Adorno, Horkheimer, eles denunciavam muito a indústrias culturais, eles denunciavam que as culturas elas estavam sendo industrializadas, o momento que está nascendo o rádio, cinema e eles denunciam essa questão dessa massificação da cultura.

Agora tomando aqui já para o final do século, a gente já tem uma questão que pode ser o oposto disso, que é a gente denunciar, ou pensar, ou desenvolver esforços para compreender este fenômeno, em que há um outro fenômeno que é o oponente a isso e junto com isso, que é a mercantilização da cultura, é a culturalização do mercado. 

Hoje pra você sobreviver ao mercado, ou ser é parte da economia, é a questão da culturalização, então assim, é por isso que você vai ver muitos produtos querendo agregar à sua marca, ao São João, as festividades e isso está acontecendo o tempo todo, é o valor, valor cultural que tem aquele serviço, aquela peça, é ele que vai estar definindo.

A gente tem que compreender mais essa mistura entre mercado, entre política e entre economia, porque eles vão se cruzar, entre a comunicação. Hoje nós vivemos numa sociedade absolutamente mediatizada, que pressupõe que os políticos eles são mediatizados, a economia de certa forma e vai estar trazendo consigo esse componente emotivo lúdico.

Essa participação que a gente poderia até pensar que seja uma participação, se a gente for descuidado, a gente pode até atribuir isso para o pensamento do pão e circo, que não é só isso, é a questão do populismo político que aproxima as pessoas, que aproximam os seus gestores, que é muito mais do que isso, mas está dentro disso. 

As festas juninas, ao longo de séculos, é uma tarefa bem difícil a gente responder essa questão de forma definitiva. Eu penso como o maravilhoso Canclini, que lembra das dificuldades da gente realizar uma investigação pensando que existe um fio condutor lá atrás que deu origem e vai dar sentido a todo esse processo que a gente viveu.

Que lembra muito das dificuldades que a gente tem, que Hobsbawm vai falar sobre a invenção das tradições, que muitas tradições que hoje a gente conhece como tradições, muitas vezes foram inventadas, foram inventadas para impor um poder. 

A minha ideia, como a de Canclini, entender o agora, no contemporâneo essa cultura, saber como elas chegaram até aqui hoje e conseguiram sobreviver, permanecer atentas e fortes, porque se a gente fosse se deparar, muitas vezes eu sou procurada em épocas de São João para poder pensar nos sentidos de o que significa a fogueira de São João, o que significa a bandeirinha de São João. 

Ora, esse sentido ele existe, a gente pode até costurar e a gente tem algumas pessoas que se dedicam a responder sobre isso, eu até posso compreender, porque na minha tese eu não trabalho de uma forma assim diacrônica, de saber, estudar todo aquele trajetória, não é uma tese histórica.

Mas a gente compreende que essas festas do São João de Campina Grande, as festas do São João, elas são festas que eram pagãs, que ela no hemisfério norte são festas muito desejadas, porque é a festa do solstício de verão para eles, que a abertura, imagine você morar numa cidade, ou num lugar que o tempo todo está abaixo de zero e de repente o sol começa a aparecer, as pessoas vão ficar encantadas.

Então é muito dentro dessa perspectiva. Então esses São João, ele era festejado com muito entusiasmo, na verdade não era o São João, mas é São João posteriormente quando a igreja católica se apropria da simbologia pagã, contudo, a igreja, que possuía um grande poder durante a idade medieval, ela optou de fazer esse paralelo, justamente trazer para si a população.

O São João como era muito festejado, também no Brasil, ele passa a ser mais festejado ainda, porque tem uma identificação com as festas trazidas pelos europeus para cá. O acendimento da fogueira que também já era uma simbologia para os índios nas aldeias, no Brasil provavelmente as fogueiras e as tochas acesas elas simbolizou muitas coisas para isso.

A tradição de pular fogueira

A pesquisadora Luciana Chianca fala sobre o que significa a fogueira nas festas juninas.

Transcrição da entrevista:

Essa tradição de pular as fogueiras, brincar com esses jogos em torno da fogueira, circulando, pulando, de modo alternado, trocando de lado, brincando de formar compadres de fogueira, que é assim que nós chamamos, assim que nós intitulamos esse tipo especial de relação de compadrio, essas brincadeiras continuam existindo. 

Eu sou uma pessoa da cidade e tenho uma vivência muito grande no meio urbano, durante esse tempo todo que eu venho estudando São João, muitas vezes eu fui também confrontada com a festa junina da área rural. Nesses universos mais rurais, nas zonas menos urbanizadas do nosso Brasil, as fogueiras continuam sendo muito, muito feitas, continuam sendo muito celebradas. 

A principal marca é a de que vai ter festa junina, vai ter São João, ou que o dono da casa ele é, digamos assim, ele é afilhado de Santo Antônio, porque a gente, fazendo aqui um parênteses, essa festa junina, ela abarca Santo Antônio, São João e São Pedro, é um verdadeiro ciclo, como a gente chama nos estudos de festas, é um verdadeiro ciclo junino.

Ela começa em Santo Antônio e vai até São Pedro, tem muita coisa para falar em torno desse ciclo, mas vou me ater por enquanto a essa questão do comprador, afilhamento daqueles que são afilhados, protegidos pelo santo. 

Essa é a primeira forma de compadrio que é muito presente, continua sendo, não só nas zonas rurais onde você vê muitas fogueiras, no Estado da Paraíba, no Estado do Rio Grande do Norte, que são dois estados onde eu vivi muitos anos, eu verifiquei isso com meus próprios olhos, sou testemunha de que nas cidades, nos bairros mais urbanizados, os bairros mais centrais onde tem mais prédios.

A gente pode perceber que quando calçam-se as ruas das cidades, que vão se tornando cada vez mais urbanizadas, os próprios pilares que vão segurar as madeiras de uma fogueira, eles precisam ser fixados, que aquela fogueira não se esparrame, não se espalhe toda. 

Então essas estacas que são fixadas, vão ficar mais difícil de ser feitas, o próprio calor emanado pela fogueira também vai estragar muitas vezes o calçamento, de modo que mesmo assim você ainda observa em algumas cidades, nos bairros mais periféricos, nos bairros mais distantes uma presença boa, uma boa presença de fogueiras. 

Quanto mais os bairros são de casas, aí cabe ao dono da casa tomar a decisão, se ele for digamos assim protegido de Santo Antônio, ele vai fazer essa fogueira na véspera de Santo Antônio, se ele for protegido de São João, vai fazer na véspera de São João, se for protegido de São Pedro na véspera de São Pedro, então você sabe de quem a família é fiel quando você passa na porta da casa que você vê uma fogueira.

 “Olha aquele pessoal lá de Santo Antônio, aquele pessoal de São João, aquele pessoal de São Pedro”. O santo mais, vamos dizer assim, mais festejado, para quem mais se acende fogueira é São João, pode ser que isso nunca se acabe. São muito acesas muitas fogueiras nos períodos juninos. 

Agora é preciso que a gente se afaste um pouco dos bairros mais urbanizados e sobretudo dos prédios, porque nós sabemos que uma decisão de acender fogueira na frente de um prédio vai exigir que haja um consentimento de todos os moradores, de pelo menos da maioria, então são coisas mais difíceis de serem negociadas, em contextos urbanos, de coletividades mais extensas.

Mas em bairros periféricos, aqui no Nordeste pelo menos nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte, são muito frequentes as fogueiras, e aí as brincadeiras em torno da fogueira vem junto, porque o grande objetivo de construir a fogueira do lado de fora de casa é chamar, acolher para o seu núcleo familiar, vizinhos, familiares próximos, vizinhos mais próximos, amigos mais próximos.

Porque a brincadeira da fogueira na verdade ela é uma grande brincadeira de união, de congraçamento. A pessoa não acende a fogueira só para São João, ela acende, sobretudo, para os seus vizinhos, amigos e parentes, e aí a festa junina é um momento muito importante para pensar, para sentir a questão da fecundidade, a questão das uniões, a questão dos romances, não é, porque sabe-se que a gente vai procurar estimular uniões entre pessoas desconhecidas.

Então um bom vizinho, um bom amigo poderá sempre ser um bom candidato, uma boa candidata, então esse momento de São João ninguém pensa nisso, isso não é consciente, a gente chama os amigos porque gosta de estar com eles, mas vem junto essa possibilidade de que ali se efetuem alianças matrimoniais, alianças amorosas, afetivas do sentido amoroso das uniões. 

Esse momento é muito privilegiado, não é à toa que é esse momento de festa junina é um momento que eu gosto de lembrar a essas pessoas todas as danças do período junino são de par, ninguém dança no período junino sozinho, não existe esse negócio de fazer assim e ser feliz só se balançando. 

Você precisa de um par, não precisa ser do gênero oposto, mas você precisa de um par para dançar, quadrilha se dança de dois, forró se dança de dois, coco tem gestos todos de referência, erótica, sensual. Então assim, não é por acaso que período junino tudo acontece para que ocorram, se estimulem as alianças entre casais novos, casais que podem surgir.

Naturalmente onde há muita licença para que aconteça o romance, é preciso também que haja interdições, porque se todo mundo agir ao seu bel prazer, aí os homens não estarão mais numa sociedade, estarão de novo no estado de natureza, o que seria muito estimulante do ponto de vista da imaginação, mas do ponto de vista social, e lembramos que estamos numa sociedade, não estamos num estado de natureza. 

Do ponto de vista social não é possível, então que voltemos a um estado de natureza onde todas as uniões aconteceriam de modo livre, espontâneo, liberado, onde há a liberação, há também restrição, a tabus e os compadrios de fogueira, aí o retorno à sua pergunta, os compadres de fogueira, eles surgem justamente para lançar as interdições entre as pessoas.

Então se você é meu compadre, é minha comadre, nós somos irmãos, são vínculos, os vínculos de compadrio são vínculos onde você traz para dentro da sua família de sangue, parentes que não são de sangue. Então se você é minha comadre, o seu marido, ou a sua companheira, a sua mulher não vai ser mais uma pessoa acessível para mim, porque nós temos um vínculo que nos une como irmã.

Essa pessoa vai se tornar um cunhado para mim, em vez de ser um perfeito estranho, ele vai ser um cunhado, se você for comadre, ou compadre de fogueira de alguém, essa pessoa vai se tornar o seu irmão, então instantaneamente os vínculos possíveis de romance ou de licença sexual que pudesse existir, eles são cortados, lança-se sobre essa união um tabu, reforça o vínculo entre os dois compadres, o vínculo fraterno, ou a sonoridade entre as mulheres que estão ali unidas nesse vínculo.

No entanto, cria-se também a interdição de uma relação que possa acontecer, porque a gente sabe que os compadres não podem se unir entre si, porque são irmãos e irmãos também não se unem é carnalmente, por assim dizer. É por isso que existem as histórias do boitatá, porque o boitatá, essa personagem é muito conhecida no folclore brasileiro, é o padre que desrespeitou o tabu do compadrio, porque o padre ele também é um pai, ele o padre, o nome padre quer dizer pai. 

O padre de uma paróquia, o padre de um conjunto de fiéis, ele é um pai dos fiéis, ele não pode ter relações sexuais, carnais, com ninguém da sua paroquia, porque ele é o pai, o seu pai não tem relações com os filhos, o tabu não permite, então o padre que tem relação com uma das suas mulheres, ou dos seus fiéis seja qual for, ele é punido, se tornando o boitatá, mula sem cabeça, boitatá. 

Esse exemplo do folclore tá aí também para lembrar as pessoas que quem descumpre as regras do compadrio, é punido e se torna uma aberração da natureza, assim como pode e também se torna por analogia com a aberração sexual.

Mulheres que mudaram a história do esporte

A inserção das mulheres nos esportes, assim como em outros espaços predominantemente masculinos, foi e tem sido um grande desafio. Entretanto, mesmo com tantas problemáticas, é importante reconhecer os avanços e as transformações que já foram alcançadas nessa área. Nesse artigo, além de se aprofundar sobre essa temática, você vai conhecer mulheres que mudaram a história do esporte e o quanto isso foi relevante para a sociedade.

É importante entender que a pratica de esportes por mulheres é historicamente dificultada porque o papel da mulher dentro do esporte se mistura com seu papel social na história da humanidade.

Visto que em muitos momentos da história foi estado dificultado, limitado ou de fato proibido essa participação. Dessa forma o esporte se consolidou como espaço masculino e ainda atualmente possui uma maioria significante do gênero.

Por exemplo, nos jogos olímpicos da antiguidade as mulheres não podiam competir ou mesmo assistir aos jogos sendo sujeitas a pena de morte caso descumprissem essa proibição.

Ou com Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, conhecido também como pai da Olimpíada Moderna que entendia que que a competição esportiva não era “coisa de mulher” e era apoiado pela sociedade em geral que associava a mulher apenas à maternidade e afazeres domésticos, sendo assim as mulheres também não competiam nessa época, pois isso era incompatível com seus papéis de gênero.

Mas trazendo essa questão um pouco mais para dentro da nossa realidade, mesmo na própria legislação do Brasil, no período da ditadura militar, era determinado que esportes como o jiu-jitsu, futebol, entre outros eram proibidos para mulheres.

Veja:

“Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” (DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941)”.

E em 1965, o Conselho Nacional de Desportos decidiu que: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, hanterofilismo e baseball”.

Mas pela força e determinação de algumas mulheres pioneiras esse paradigma de exclusão de gênero dentro do esporte foi ficando cada vez mais obsoleto e hoje, apesar de ainda haver uma desigualdade significativa dentro desse espaço, muitas conquistas já foram alcançadas e isso tem contribuído para uma mudança real na sociedade.

Diante disso, vamos conhecer melhor esses avanços e principalmente algumas mulheres que mudaram a história do esporte.

As principais conquistas femininas no esporte

O machismo e a estrutura social que predomina desde a antiguidade sempre geraram barreiras imensas para a participação das mulheres no meio esportivo.

O primeiro registro de participação ativa de uma mulher em uma olimpíada, tendo em mente que antes era estritamente proibido, foi de uma grega chamada Belistiche que participou e venceu a prova de quadriga de potros – carro puxado por quatro animais, em 268 a.C.

Depois da sua participação e destaque foi instituído os jogos Heranos, que eram exclusivamente femininos e se limitavam a um esporte: a corrida.

O que foi proibido de novo com a dominação romana assim como os jogos olímpicos em geral.

Na era moderna as olimpíadas voltaram a acontecer, como já mencionado acima, mas as mulheres permaneciam de fora desse contexto. Entretanto na época os movimentos em favor dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero começaram a ganhar força e várias solicitações para essa inclusão começaram a acontecer.

Em protesto às proibições, a grega Stamati Revithi realizou o percurso de 40 km da Maratona fora do estádio no dia seguinte à realização da prova em 1896. E mesmo tendo completado a prova em um tempo realmente impressionante, superando o desempenho de muitos homens não teve o reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional.

(Sugestão de posição da imagem de destaque)

Já em 1917, a francesa Alice Melliat fundou a Federação Esportiva Feminina Internacional (FEFI). Dessa forma passou a gerenciar o esporte feminino, estabelecendo regras e supervisionando recordes. A Federação também organizou os Jogos Olímpicos Femininos em 1922, 1926, 1930 e 1934.

Depois disso, com a grande adesão e repercussão que os jogos femininos estavam ganhando, o comitê se viu obrigado a agregar as mulheres nas Olimpíadas Modernas. Mesmo assim, foi somente durante as Olimpíadas de Berlim em 1936, que as mulheres foram oficialmente reconhecidas como atletas olímpicas.

Desde então esse espaço começou a ser ocupado cada vez mais pela presença feminina. Claro que esse processo de luta não foi fácil. Toda a história da mulher dentro do esporte foi marcada pela superação de muitas barreiras e preconceitos e também por fases de retrocesso, como foi o caso da limitação da prática durante a ditadura militar.

Mas é notável que muitas mudanças aconteceram dentro desse espaço e hoje temos mulheres em todo tipo de esporte, participando de torneios e jogos olímpicos etc, e tudo isso graça às pioneiras.

Você já conheceu o nome de algumas mulheres que mudaram a história do esporte, mas te convidamos a conhecer outras logo abaixo.

Mulheres que mudaram a história do esporte

Claro que essa lista poderia ser muito maior, temos nomes femininos importantíssimos dentro do esporte que se destacam. Mas, vamos apresentar algumas outras mulheres que mudaram a história do esporte focando principalmente em atletas brasileiras.

Charlotte Cooper: foi a primeira campeã olímpica da história. A tenista britânica ganhou duas medalhas de ouro em Paris nas modalidades: simples e nas duplas mistas. Além disso essa mulher era surda e mesmo com as roupas inadequadas da época para o esporte conseguiu a dupla conquista.

Maria Lenk: uma figura extremamente importante dentro da natação feminina. Foi a primeira sul-americana a participar de uma Olímpiada, em 1932 e também única mulher brasileira a entrar para o Hall da Fama da natação.

Aída dos Santos: primeira mulher brasileira a disputar uma final olímpica na modalidade salto em altura na competição de Tóquio, em 1964. Aída é uma mulher negra, sendo assim teve que enfrentar muitos preconceitos nesse aspecto.

Larissa Latynina: a maior medalhista de todos os tempos, nascida na Ucrânia, representou a União Soviética em três jogos conquistando um total de dezoito medalhas – sendo nove de ouro.

Enriqueta Basilio: a atleta olímpica mexicana foi a primeira mulher na Olimpíada a acender a pira. Esse foi um momento histórico e de grande importância que aconteceu na abertura dos Jogos do México, em 1968.

Sandra Pires e Jacqueline Silva: conquistaram as primeiras medalhas de ouro para o Brasil nas Olimpíadas de 1996, em Atlanta. Além disso, essa foi a primeira vez que o vôlei de praia foi inserido dentro da competição.

Marta Vieira da Silva: a jogadora Marta, além de ter conseguido duas medalhas de prata nos jogos olímpicos foi também eleita melhor jogadora de futebol do mundo pela Fifa em seis oportunidades e artilheira da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2007.

Dentre tantas outras mais. A trajetória da mulher nesse espaço, assim como em muitos outros, foi marcado por uma intensa luta por reconhecimento, mas, é também repleta de conquistas. Entretanto, a igualdade de gênero dentro das competições esportivas ainda é ainda uma estrada a ser percorrida, mas a mudança está acontecendo e ela é gradual. 

Ficou com alguma dúvida sobre mulheres que mudaram a história do esporte ou sentiu falta de algum nome? Conta pra gente nos comentários, responderemos em breve.