Mulheres de Luta na Consciência Negra

No dia 20 de novembro celebramos o dia da Consciência Negra.

A data chama atenção para que possamos refletir sobre a vida das negras e negros do país. Em todo Brasil, eventos são realizados promovendo debates, oficinas, palestras e outras atividades.

O intuito é claro: promover discussão e atrair visibilidade a fim de gerar mudanças sociais.

O Mulheres de Luta não poderia deixar de homenagear e agradecer a todas as Mulheres Negras que estiveram presentes, direta ou indiretamente, em alguma atividade do projeto. 

Em torno da autora do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada“, Carolina de Jesus, reunimos diversos depoimentos de profissionais que resgatam sua vida e obra em um documentário produzido pelo Mulheres de Luta.

“Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondiam-me: – É pena você ser preta.”

Carolina Maria de Jesus

A primeira dama negra do teatro, Ruth de Souza, nos deixou em 2019, mas seu legado está eternizado na história do teatro, do cinema e da televisão brasileira. Ruth de Souza foi a primeira mulher negra a protagonizar uma telenovela, a primeira mulher negra a se apresentar no Teatro Municipal do Rio e a primeira artista nascida no Brasil a ser indicada a um prêmio de melhor atriz em um festival internacional de cinema.

Ruth de Souza também nos concedeu uma entrevista para o filme “Cinema das Mulheres”. 

“Quando entrei no teatro, os atores brancos precisavam se pintar para fazer papel de negro. Foi aí que comecei a ver que havia alguma coisa.”

Ruth de Souza em entrevista para a Uol, em 20/11/2016

O Mulheres de Luta também produziu a série “Literatura, Substantivo Feminino”. Conceição Evaristo, Miriam Alves, Cristiane Sobral foram entrevistadas.

A narração é feita pela atriz e cantora Zezé Motta, que coleciona diversos trabalhos importantes no cinema, teatro, televisão e na música. Zezé é também uma reconhecida militante do Movimento Negro no Brasil. 

“Na minha adolescência, eu me achava muito feia porque minhas colegas me diziam que meu nariz era chato, meu cabelo era ruim e minha bunda era grande. (…) comecei a alisar o cabelo e usava peruca chanel. Só comecei a me aceitar em 1969, quando tinha 25 anos e viajei para os Estados Unidos com Augusto Boal. Via negros lindos na rua, com cabelos black power lindíssimos. Essa viagem foi muito importante para mim.”

Zezé Motta em entrevista para o Superbonita, em 12 de setembro de 2017.

A literatura de Miriam Alves é uma escrita de resistência que reforça a  afirmação da memória e dos saberes da população negra que sofreu e ainda sofre com as consequências da colonização. 

“Gosto de pensar que Literatura Negra é um movimento literário, temos diversidades de escritas e de tratamento estético. É algo revolucionário, não cabe nas caixinhas de denominações que colocam. É mais amplo. Existem vários fazeres dentro da Literatura Negra.”

Miriam Alves

Conceição Evaristo esteve no Mulheres de Luta partilhando seus saberes sobre sua escrita literária: escrevivência. Suas obras são repletas de sentimentos intensos que faz emergir vozes que foram sistematicamente caladas. Conceiçao Evaristo também reflete sobre o impacto de quando negras e negros se colocam no mundo e contam suas proprias histórias.

“A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.”

Conceição Evaristo

Cristiane Sobral, atriz e escritora, foi a primeira mulher negra a se graduar em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília. A militância aparece em suas obras, tanto na escrita quanto em sua realização teatral.

“Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira

Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá”.

Cristiane Sobral, Não Vou Mais Lavar Pratos

Quando Heloisa Pires Lima percebeu a ausência ou a inadequação de personagens negras e negros na literatura, passou a se dedicar a estudar e criar obras protagonizadas por essas personagens. O Mulheres de Luta teve o prazer de receber Heloísa Pires Lima em um encontro que está disponível no blog, no qual a escritora aborda o tema “Empoderando meninas através da Literatura”.

“E fui aos poucos descobrindo que eu era a Preta marrom, uma menina negra. Ser negra, como me percebem? Ou como eu me percebo? Ou como vejo e sinto me perceberem? Tenho um amigo que só às vezes é preto. Que fica preto quando vai à praia no verão. Mas ser negro é muito mais do que ter um bronze na pele.”

Heloisa Pires Lima, Histórias da Preta

Lu Ain-Zaila Também conversou com o Mulheres de Luta sobre o afrofuturismo em suas obras. A escritora também aborda conteúdos relacionados à gênero. 

“Em suma, a sua mãe é uma heroína com um superescudo feito pelos deuses negros do Panteão das Palavras que a escolheram para…”

Lu Ain-Zaila, Sankofia

Recentemente publicamos uma entrevista inédita com Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro. Às vésperas das eleições municipais, reforçamos a importância das mulheres na política, especialmente das mulheres negras que ainda ocupam um lugar reduzido nos cargos de poder. 

“E se a gente tem diagnósticos apresentando que as mulheres negras hoje são as mais vulneráveis, objetivamente, não é só uma sensação da Marielle mulher, negra, mãe e da favela. Os índices apresentam que as mulheres negras são as mais estupradas, são as mais assediadas, estão na base da pirâmide. (…) Então, precisa intervir.”

Marielle Franco em entrevista para o Mulheres de Luta

À Carolina de Jesus, Ruth de Souza, Zezé Motta, Heloísa Pires Lima, Miriam Alves, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Lu Ain-Zaila e Marielle Franco, nossos sinceros agradecimentos.

O espaço continua aberto para que continuemos ampliando o debate, contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária em seus direitos, e que agregue e reconheça os saberes e valores das diferenças.