Dia dos Povos Indígenas

Eliane Potiguara
Eliane Potiguara

Em 19 de abril de 1940, lideranças indígenas se reuniram no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México. Posteriormente, adotaram a data como o Dia do Índio.

Mas, para os povos indígenas, incluindo a professora Ane Keila Firmo Alves:

“Não se usa mais ‘Dia do Índio’, isso nos remete ao singular. Nós falamos Dia dos Povos Indígenas. Quando se fala de índio, é sempre de uma forma muito genérica. Quando se fala povos, estamos diferenciando cada cultura ”.

Sendo assim, de acordo com a professora, quando falamos em Dia do Índio, existe uma generalização, reforçando uma ideia equivocada dos povos indígenas, o que acentua estereótipos e preconceitos.

Nós sabemos que a cultura indígena está inserida na sociedade. Na culinária, na fala e até em nossos hábitos estão presentes diversos referenciais indígenas.

Reforçar esse aspecto cultural é importante, mas hoje, é cada vez mais urgente a necessidade de fazermos uma leitura crítica da nossa realidade a fim de debatermos as questões que afetam esses povos.

Para falarmos sobre esse dia, o Mulheres de Luta traz um pouco da história de quatro mulheres indígenas que nos ensinaram e ainda nos ensinam muito: Eliane Potiguara, Marcia Kambeba, Clara Camarão e Madalena Caramuru.

Eliane Potiguara

A escritora e professora Eliane Potiguara é também fundadora da Rede Grumin de Mulheres Indígenas, participou de diversos seminários na ONU em defesa dos direitos dos povos indígenas e foi uma das 52 brasileiras indicadas ao “Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz”, um projeto de âmbito internacional.

Defensora dos Direitos Humanos, Eliane Potiguara traz inúmeras lutas e conquistas em sua trajetória.

Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e com especialização em Educação Ambiental pela UFOP, a escritora imprime em seus livros o olhar de uma mulher indígena no Brasil.

Em “A Terra é a Mãe do Índio”, de 1989, é uma cartilha que aborda a perspectiva de educação defendida pela Rede de Apoio GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena).

A educação é mais do que um simples processo de alfabetização. Através dela ocorre o resgate histórico, o fortalecimento da identidade indígena e a valorização da cultura. O fortalecimento da identidade é importante especialmente para as regiões onde houve processo de colonização, e nas áreas que não houve, a importância da preservação é mais salientada.

O livro-cartilha é tão influente que foi traduzido para o inglês e utilizado em duas teses de mestrado envolvendo o tema ecofeminismo

A primeira edição foi apoiada pelo Programa de Combate ao Racismo (Conselho Mundial de Igrejas) de Genebra e a segunda pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Em “Metade Cara, Metade Máscara”, a escritora fala sobre inúmeros temas a partir da visão da mulher indígena, como o amor, os relacionamentos, a paz, a ancestralidade, a família, e inúmeras histórias de sua vivência.

Eliane Potiguara nos ensina que valores como espiritualidade, intuição e conexão com a natureza permitem reacender sentimentos que promovem o reencontro com nós mesmos.

O livro também tem sido utilizado em diversas teses acadêmicas.

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Marcia Kambeba

Não me chame de “índio” porque
Esse nome nunca me pertenceu
Nem como apelido quero levar
Um erro que Colombo cometeu.

Por um erro de rota
Colombo em meu solo desembarcou
E no desejo de às Índias chegar
Com o nome de “índio” me apelidou.

Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou.

Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi “homem branco” subir
Na minha Uka me escondi.

Ele veio sem permissão
Com a cruz e a espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar para a civilização.

“Índio” eu não sou.
Sou Kambeba, sou Tembé
Sou kokama, sou Sataré
Sou Guarani, sou Arawaté
Sou tikuna, sou Suruí
Sou Tupinambá, sou Pataxó
Sou Terena, sou Tukano
Resisto com raça e fé

Márcia Wayna Kambeba, Índio eu não sou

A poeta indígena Márcia Wayna Kambeba veio do povo Omágua/Kambeba, um povo que conhece bem o que é resistência.

Márcia Kambeba formou-se em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas, onde também fez seu mestrado. Além de geógrafa, escritora e poeta, Márcia também é compositora, cantora, fotógrafa e ativista, dedicando especial atenção à importância da cultura dos povos indígenas.

Com relação à luta e à resistência, nós gostaríamos que nesse momento, em pleno século XXI, a situação fosse diferente, mas não é.

Em junho de 2020, o Jornal da USP publicou uma matéria chamada “A situação dos povos indígenas no Brasil é dramática”.

“Os mecanismos constitucionais garantiram que houvesse uma maior proteção aos índios brasileiros. Mas vemos um retrocesso brutal atualmente por causa da negativa do atual governo em dar seguimento à política determinada na Constituição”, afirmou o professor Pedro Dallari.

Dallari aponta três principais fatores, como o desmonte da Funai, a falta de atendimento especializado durante a pandemia e a ameaça crescente das tomadas das terras indígenas.

Em seu livro “Saberes da Floresta”, Márcia Kambeba traz reflexões e compartilha práticas capazes de nos fazer ampliar nossa visão de mundo, em contato com a cultura indígena.

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Clara Camarão

Clara Camarão é da etnia potiguara e sua história mostra luta, bravura e coragem. Ela lutou e liderou um grupo de mulheres em pleno século XVII, em Pernambuco, contra invasores holandeses.

A primeira missão oficial de Clara Camarão, foi como líder de uma tropa feminina que escoltou famílias em busca de refúgio em Porto Calvo, Alagoas, mas o grande feito dessa guerreira foi em abril de 1646, na Batalha de Tejucupapo.

Os holandeses tentaram invadir Tejucupapo, sabendo que a tropa masculina não estava lá, mas eles não contavam com a tropa feminina.

Elas ferveram tonéis de água com pimenta e o vapor deixou os invasores com os olhos ardendo. Então elas atacaram com suas lanças, arcos e tacapes, uma arma feita de madeira.

Elas ficaram conhecidas como as “Heroínas de Tejucupapo” e o nome de Clara Camarão consta no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Madalena Caramuru

De acordo com os registros históricos, Madalena Caramuru, descendente dos Tupinambás, foi a primeira mulher alfabetizada no Brasil.

Madalena escreveu uma carta em 26 de março de 1561 para o padre Manoel da Nóbrega. Ela pedia na carta que as crianças índias fossem tratadas com dignidade.

De acordo com Arilda Inês Miranda Ribeiro, professora da Universidade Estadual Paulista, os povos Tupinambás não aplicam diferenças de oportunidades de acordo com o sexo.

Em 1561, as mulheres não podiam ler e escrever, mas isso não se aplicava à Madalena Camarão e nem aos Tupinambás, pois para eles isso não fazia o menor sentido.

Foi então que os indígenas reivindicaram ao padre Manoel da Nóbrega o ensino do português para todos os indígenas, incluindo as mulheres.

O padre levou a carta de Madalena para a corte junto ao pedido, mas a então rainha Catarina recusou.

Isso não impediu que Madalena se tornasse símbolo da luta pela alfabetização da mulher no Brasil.

Nesse dia, aproveite para ler a obra de uma mulher indígena. Isso amplia nossa perspectiva de mundo e reforça o respeito aos Povos Indígenas.