O impacto da pandemia na alta do arroz

Regiane Wochler fala sobre como a pandemia significou necessariamente uma interrupção nas cadeias de distribuição de produtos, uma interrupção na rede de produção e isso, obviamente, teve um impacto de custos.

Transcrição da entrevista da economista Regiane Wochler concedida ao Mulheres de Luta.

Quando a gente fala especificamente do preço do arroz, a gente tem uma série de elementos que estão vinculados a esta alta. Não é apenas, como Paulo Guedes disse, reflexo de um aumento de consumo interno, como se a vida das pessoas tivesse melhorado, como ele disse.

Infelizmente não é essa a situação, antes fosse. A gente tem alguns fatores gerais e alguns fatores internos e externos.

Bom, o principal fator geral, obviamente, é a pandemia. A pandemia que atingiu não só Brasil, mas o resto do mundo. Ela significou necessariamente uma interrupção nas cadeias de distribuição de produtos, uma interrupção na rede de produção e isso, obviamente, teve um impacto de custos mesmo.

A gente viu alguns estudos de IPEA e IBGE que mostram que a maior parte das famílias brasileiras apresentaram redução de renda, nesse segundo trimestre de 2020. Então, a média de queda de renda foi algo em torno de 20% no mínimo, entre as famílias.

Falando, ainda, dos fatores internos, a gente teve também, historicamente, a gente está falando ai de pelo menos 2019 para cá, um aumento de áreas cultiváveis com commodities, nas quais o Brasil tem mais negociações no exterior, então, um aumento de áreas destinadas a produção de soja, milho, algodão, por exemplo.

E culturas mais voltadas para o mercado interno, como o arroz e feijão, por exemplo, tiveram ou redução de áreas, ou estabilidade dos locais. Ou seja, a gente chegou nesse período de pandemia em uma situação que combinou uma menor produção brasileira de arroz e feijão, junto com o aumento de demanda, que não foi só nacional, mas internacional também que, as pessoas estando em casa, o aumento de consumo de feijão e arroz realmente cresceu um pouco mais.

Em relação aos fatores externos, enfim, externo, interno, a gente teve aqui a cotação de dólar, que tem um peso enorme em relação ao preço, não só do arroz, mas de outras commodities.

Então, quando a gente fala de commodities, a gente fala de produtos que são negociados no exterior, produtos que o país produz internamente, que vende para o exterior. Então, para as pessoas comuns é muito difícil a gente imaginar que o preço do dólar subiu, “não compro dólar, para o que isso me importa?”.

Porque na ponta, o preço do dólar tem impacto nos nossos alimentos, então, uma boa parte do preço do arroz hoje, que nós estamos vendo, esse aumento de preço, está vinculado sim ao aumento do preço do dólar, também.

Isso porque, quando o dólar sobe, em relação ao real, isso faz com que nossos produtos brasileiros no exterior tenham uma maior competitividade, ou seja, os produtores nacionais, os grandes produtores nacionais, podem optar em vender para o exterior, onde encontram uma lucratividade maior, ao invés de vender internamente.

Então, esse sim é um grande impacto que a gente viu em relação ao preço do arroz aqui no Brasil. Então, não é o consumo das famílias, meramente, mas principalmente o aumento do dólar que serviu de estímulo às exportações brasileiras de arroz, de feijão, de soja, de milho e isso, obviamente, se reflete na falta desses produtos internamente. Portanto, por isso, aumenta-se o preço internamente.

Uma outra coisa que é importante da gente falar, também, em relação a essa questão internacional, diz respeito a quebra de safras internacionais.
Então a gente tem outros players, outros países que são produtores de arroz ao redor do mundo, a gente tem Índia como um dos maiores produtores, China também, e Estados Unidos, esses três países sofreram queda em virtude de quebra de safra.

A China sofreu uma inundação grande nas plantações e isso, obviamente, afetou a quantidade de arroz disponível. Os Estados Unidos já vinha enfrentando problemas na safra de arroz desde outubro do ano passado, então, isso nem é um dado novo, é sabido. A Índia também teve questões climáticas que influenciaram na produção arroz.

Portanto, a demanda externa por esse produto acabou subindo. Então, esses fatores internacionais têm muito mais peso do que os nacionais.
Então, cresceu a demanda externa por arroz, que não pode ser atendida por esses países, então surgiu uma oportunidade para o arroz brasileiro e o grande produtor brasileiro acabou optando vender para o exterior até porque, o dólar estando mais alto, a receita para ele em reais acaba sendo maior.
Essa é uma questão. E como, internamente, os órgãos públicos não tinham mais estoques reguladores para equilibrar o preço internamente, então a gente vê o aumento de preços subindo.

Uma outra coisa que é importante, também, falar em termos internacionais, que teve sim peso na questão do preço do arroz, diz respeito a problemas geopolíticos.

Um grande exemplo disso diz respeito, por exemplo, ao fato de os Estados Unidos terem parado de vender arroz para países árabes e para a Venezuela, nos últimos meses. Isso, também, abriu uma janela de exportação para o Brasil deste produto, arroz. A gente já tinha comércio, por exemplo, com os árabes, em relação a carnes e, também, passamos a exportar arroz.

Isso porque os Estados Unidos cortou relação com esses produtos, para esses países, ou seja, a demanda internacional por arroz cresceu exponencialmente e o grande produtor nacional brasileiro, acabou optando por isso.

Então, quando a gente olha os levantamentos feitos pelo CEPEA, que é o Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada, da USP, a gente vê que o preço do arroz, em 12 meses, aqui, no Brasil, chegou a variar mais de 100%.

Então, quando a gente olha o preço da saca de arroz de 50 Kg, do tipo 1, em janeiro a saca custava 49 reais e 50 centavos, isso a gente está falando de pessoa produtor. Em setembro de 2020, a mesma saca, o mesmo tipo de arroz, vale 103.38 reais. Ou seja, a gente teve um aumento de 108% no preço da saca, na produção do produtor.

Quando a gente olha, também, o preço em dólar, o preço em dólar da saca também mudou. Ou seja, não apenas a variação cambial, a mudança que a gente tem quando fazemos a conversão de real para dólar, que por si só já garantiria um maior retorno para o produtor nacional. Mas a gente tem, também, é que o preço e dólar também subiu por causa dessa queda de safras ao redor do mundo.

Então, segundo os dados do CEPEA, também, em dólar, a saca valia 11 dólares e 95 cents e janeiro, passo para 19 dólares e 46 cents em setembro, ou seja, em dólar houve uma variação de 62.85%.

Então, esse conjunto de coisas acabou fazendo com que os mais pobres sofressem. Então, se com 600 reais era possível, em uma grande cidade, você garantir a segurança alimentar, hoje esses 600 reais já não seria possível garantir isso. Com 300 reais, então, é certeza que essas famílias voltarão para a vulnerabilidade alimentar, para a área de insegurança alimentar.

Então, nós temos, realmente, um problema muito sério para os próximos meses.