O Legado de Marielle Franco

Marielle Franco

Nascida e criada no Morro da Maré.

Mulher, mãe, negra, homossexual e antes de tudo mulher da favela. Continuou morando na Maré durante toda a sua vida.

Começou a trabalhar aos 11 anos de idade. Trabalhava um período para pagar sua escola, e estudava no outro. Para sua família, a educação ocupava um lugar de importância, um lugar que possibilitava a ascensão social.

Sua identidade é construída no cotidiano de quem vive nas ruas da Maré.

Curtia baile funk.

De formação cristã, participava da igreja, da pastoral da juventude, o que contribuiu para a construção de seus paradigmas sobre política e fé.

Fé, palavra que age como combustível para a realização de nossos desejos. Pode ter sido a fé que levou essa mulher a se envolver com direitos humanos e fazer da sua vida uma luta por justiça social? Suas razões são mais profundas.

Isso tudo me compõe hoje para chegar nesse último período trabalhando com direitos humanos por uma questão de sobrevivência.

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

A história de Marielle se confunde com a de outras mulheres negras das favelas, mulheres que tem fé de que o amanhã será melhor.

Marielle Franco era socióloga e política. Pelo PSOL foi eleita vereadora na cidade do Rio de Janeiro em 2016, destacando-se como a quinta candidata mais votada entre mulheres e homens.

Defensora do Feminismo e dos Direitos Humanos, Marielle era também atuante na luta pela justiça, denunciando os abusos das autoridades policiais nas favelas.

A luta de Marielle é pela sobrevivência das negras e negros e das populações vulneráveis . Mas, ela sabe que não basta sobreviver quando nosso “existir” é esvaziado de seu potencial simbólico.

Não basta viver em um mundo em que um grupo específico tem o controle do poder, enquanto o outro fica à mercê, sem poder participar das decisões que afetam na manutenção ou não de suas vidas.

Essa falta de maior participação nas decisões de poder, amplia a vulnerabilidade de negras e negros das periferias, salienta o abandono e o descaso do Estado, e intensifica paradigmas racistas.

É preciso ter fé no poder e na capacidade de transformar. Marielle acreditou e deixou sua contribuição, tanto durante suas atividades na área de gestão, como na política. Mas sua herança está em cada vida que ela tocou, transformando-as em defensoras do seu legado.

A vida de Marielle foi cessada em 14 de março de 2018. A então vereadora e seu motorista Anderson Pedro Mathias Gomes foram assassinados a tiros no Rio de Janeiro.

Mas, seu legado permanece em cada voz que ecoa “Marielle Presente!”

O Mulheres de Luta traz uma entrevista inédita com Marielle Franco realizada em 2016. Aqui vamos abordar um pouco sobre os conteúdos levantados por Marielle e relembrar as contribuições que ela nos deixou.

A Criminalidade nas Favelas

“Quando eu me entendo aonde eu estava, que eu não estava só no subúrbio, que eu não estava só na zona norte do Rio de Janeiro, mas que eu tava dentro de uma favela. Em uma favela onde eu perdi e vi perder amigos. Então, é uma construção política de uma Marielle dentro daquilo ali, e que poderia perder a vida a qualquer momento.”

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Desde o final do século XIX, o Rio de Janeiro tem favelas. A primeira, no “Morro da Providência”, foi ocupada principalmente por ex-combatentes da Revolta de Canudos. Os novos moradores batizaram o local de “Morro da Favela” por que havia um morro habitado em Canudos com o mesmo nome.

O nome foi emprestado da planta, a Cnidoscolus quercifolius que era muito comum nessa região da cidade baiana. É um arbusto resistente com espinhos que possui uma semente semelhante à fava, por isso seu nome favela, faveleira ou faveleiro.

Mas, foi só por volta da década de 1920 que o nome favela passou a ser associado à todo e qualquer conjunto de habitações populares precárias, com pouca ou nenhuma infraestrutura.

Desde o início, a favela foi ocupada por pessoas de baixa renda, em sua maioria negras. Além da falta de recursos, a favela era cada vez mais associada há um “esconderijo de criminosos”, embora apenas 1921 o tráfico de drogas tenha se tornado crime.

Ainda não havia a figura de um chefe do tráfico.

No final da década de 1970 surge o Comando Vermelho, uma organização criminosa que passaria a controlar as favelas do Rio de Janeiro.

Outras organizações também surgiram nas décadas seguintes, atuando basicamente da mesma maneira: com a coerção de moradores e com o controle das atividades na favela, sempre financiadas principalmente com venda de drogas.

Foi apenas nos anos 2.000 que essa estrutura passou a ser mais questionada, fazendo emergir uma outra forma de controle.

Nesse cenário, surgem as milícias ou “polícias mineiras” como eram chamadas na época. Elas já começam com uma vantagem, já que possuem o apoio de outros policiais e agentes do Estado.

A mídia começa a falar sobre esse assunto por um período. Políticos se dividem. Enquanto uns denunciavam, outros demonstravam tolerância, e outros até mesmo simpatia.

Marielle acompanhou parte dessa trajetória histórica que trouxe tanto sofrimento às favelas. Ela percebia, em seu dia a dia, que o aumento das investidas policiais eram proporcionais ao aumento do número de homicídios nas favelas, deixando os moradores ainda mais vulneráveis do que já estavam.

Dados de pesquisa corroboram com isso.

Marielle e a Sobrevivência nas Favelas

A atuação de Marielle junto aos moradores das favelas é a marca de seu trabalho.

Entre inúmeras atuações da socióloga no combate à violência nas favelas, está uma campanha de 2006 contra o Caveirão, uma iniciativa que contou com o apoio da Justiça Global, a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, a Anistia Internacional e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis.

Esse tipo de veículo foi inicialmente utilizado na África do Sul durante o apartheid. Passou a ser usado também nos EUA a fim de proteger os policiais contra o armamento pesado de criminosos e foi incorporado ao Rio de Janeiro sob essa mesma justificativa.

No entanto, apesar de contribuir à proteção de policiais, o veículo também atua na vulnerabilização dos moradores.

Com uma caveira na lateral do veículo, símbolo do BOPE, os policiais adentram nas favelas para resgatar policiais feridos, ou para promover uma ação policial, mas também ameaçam física e psicologicamente os moradores.

Utilizam uma linguagem autoritária, salientando a ideia de que o inimigo deve ser eliminado, utilizando violência para combater violência. Os moradores ficam entre os traficantes e os policiais, a ainda acabam sendo associados aos crime.

Marielle e as Mulheres da Favela

Antes de se identificar como mulher negra, Marielle faz questão de começar sua apresentação frisando que é, antes de tudo, uma mulher da favela.

Mulher, favelada, negra e homossexual, quatro caracteristicas que sofrem o estigma social do sexismo, do machismo, da homofobia e do racismo.

Assim, Marielle luta pelas mulheres, pela emancipação da mulher negra e favelada, e questiona os padrões heteronormativos impostos na sociedade.

Esse processo de construção é coletivo, partilhado com outras mulheres nos diversos grupos nos quais atuou.

A popularidade de Marielle não foi construída na mídia, foi forjada no dia a dia da mulher preta e favelada do Rio de Janeiro.

“Foi a primeira vez que eu fui candidata. Não acredito nessa história de sorte de principiante.”

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Se candidatar pela primeira vez e ficar em quinto lugar é a prova de como o seu trabalho é reconhecido.

Podemos afirmar que toda a vida de Marielle foi dedicada à defesa dos direitos humanos e contra as violência nas favelas.

Marielle atuou em atividades do CRIOLA, Casa da Mulher Trabalhadora (CAMTRA). Na política, Marielle se reconhecia muito mais na gestão e na organização. Antes de ser eleita, sua atuação como assessora parlamentar de Marcelo Freixo inclui a articulação para promover a participação de mulheres nos debates dos projetos que seriam propostos.

Em 2004, Marielle perde uma amiga que havia acabado de passar no vestibular no mesmo ano em que ela passou, vítima de bala perdida.

Infelizmente, essa é uma realidade que ainda se faz presente nas favelas.

“Ver a mãe dela com dor, é ver a minha mãe com dor, e de outras tantas mulheres mães faveladas”.

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Interseccionalidade entre Raça e Gênero

“Pra entender hoje o lugar das favelas, tem que haver um diálogo com o que foram os quilombos. Para entender hoje o que é o feminismo negro atual, tem que passar pele histórico das mulheres, do que foi a luta das mulheres, mas ampliando para esse conceito.”

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Quando uma mulher negra da favela perde sua filha, vítima de um bala perdida, outra mulher negra que vive na favela sabe que poderia ter sido consigo. Há uma identificação imediata, por que sabemos que estamos falando de um mesmo corpo que vive em constante vulnerabilidade.

Silvia Ramos e Leonarda Musumeci abordam esse tema em Elemento Suspeito, como relembra Marielle Franco em entrevista para o Mulheres de Luta.

Infelizmente, especialmente após o crescimento do conservadorismo, surgem pessoas que questionam as reparações históricas, negando o lugar da identidade negra, tratando como o racismo como se ele não fosse estrutural.

“A configuração das favelas traz um diálogo com os quilombos. Para entender hoje o feminismo negro atual tem que passar pelo histórico das mulheres, ampliando o conceito.”

Marielle Franco, para o Mulheres de Luta em 2016

Trazer esse debate histórico, e relacioná-lo a gênero e raça permite termos também uma leitura mais ampla desses processos sociais. Ampliar também é essencial para estarmos presentes em movimentos cada vez mais amplos, desde que também haja espaço às pautas negras.

São esses debates que permitem o auto reconhecimento e a afirmação cultural, como por exemplo, com relação ao cabelo e a negritude.

O corpo negro estigmatizado, em uma sociedade que salienta a violencia contra ele, é cada vez mais negado, quando não há nesse processo de resgate o reconhecimento histórico e o fortalecimento da identidade.

Nas ações que visam contribuir para um cenário mais justo, é importante a luta pelos direitos com o apoio e a articulação junto a outras mulheres negras periféricas.

Para se lutar por justiça é preciso compreender que existe a criminalização a partir da cor da pele. É preciso atuar nas leis e no fortalecimento da identidade, a exemplo de Marielle.

É assim que podemos manter o seu legado.

Confira os vídeos da entrevista que as Mulheres de Luta fizeram com Marielle Franco em 2016.