O Pessoal é Político, o documentário

No Brasil, a segunda onda do feminismo acentuou a luta pelos direitos reprodutivos da mulher sobre seu corpo e ampliou os debates sobre sexualidade. A recém chegada do anticoncepcional também contribuiu para o fomento de reflexões que separavam o sexo da maternidade. O papel de “reprodutora” passa a ser questionado, bem como o de “dona de casa” e “mãe”. Pautas como o aborto começaram a ter destaque, enquanto o controle de natalidade e o planejamento familiar passam a ser pensados nas políticas públicas do país.

Mas a segunda onda do feminismo no Brasil tinha outra especificidade, a ditadura militar. A mulher que reivindicava o poder sobre seu corpo, sentia nele mesmo os obstáculos impostos pelo cerceamento à liberdade de expressão. Em número expressivo, as mulheres participavam de grupos de oposição ao governo, e na militância feminista o corpo é o centro do debate.

O documentário “O pessoal é político” aborda esse movimento sócio-político no Brasil, especialmente no período que vai de 1975 a 1985, instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) como a Década Internacional da Mulher. O documentário foi realizado pela Lascene Produções, com direção de Vanessa de Araújo Souza.

Participaram do documentário a filósofa, pesquisadora e professora da UFRJ Carla Rodrigues, a pedagoga e militante feminista Schuma Schumaher, a doutora e professora da Universidade Federal Fluminense Hildete Pereira de Melo, as escritoras Heloísa Buarque de Holanda e Adélia Borges. A socióloga e doutora em história social Anna Marina Barbara Pinheiro também integra o grupo, bem como a doutora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ Liv Sovik, além de Fátima Setúbal e a filósofa especialista em sociologia do trabalho e gênero Helena Hirata.

Assista até 28 de fevereiro aqui no site das Mulheres de Luta:

Por que falar de Feminismo?

“A primeira vez que uma menina houve uma frase do tipo “você não pode fazer isso porque você é menina” ela dali em diante tem duas escolhas: aceitar dado como natural “é realmente, não posso fazer isso porque eu sou menina!” (…) ou perguntar por quê?”

Carla Rodrigues

A fala de Carla Rodrigues demonstra como os valores culturais impactam na vida de uma mulher logo na infância, e acentua o traço machista da nossa sociedade. Adélia Borges lembrou, inclusive, da fala de seu pai “você não precisa estudar, você vai casar!” A mãe de Adélia, no entanto, estimulava a menina a alçar os voos que desejasse. Fátima Setubal relembra que seus irmãos podiam fazer coisas que ela não podia, como ter relações sexuais antes do casamento, por exemplo, uma vez que na época o pensamento mais vigente era de que a mulher tinha que se casar virgem. Era a sociedade dizendo como deveria ser o corpo da mulher, e as mulheres se unindo para dar um basta nisso.

Mesmo com os anticoncepcionais circulando pelo país, quem tinha acesso tomava o medicamento escondido, porque havia um tabu social, um pudor atuante, mas que estava sendo enfrentado. Schuma Schumaher reforça que:

“as mulheres eram preparadas para servir. Servir primeiro ao seu companheiro, seu marido, seu dono. Depois servir aos seus filhos, servir às pessoas da casa. Não tinha representação das mulheres no mundo da política. Quer dizer, isso era quase como naturalizado que a nós cabia primeiro obedecer aos pais, ao pai, e depois obedecer aos companheiros.”

Na primeira onda feminista do Brasil a luta principal era pela cidadania, pelo direito ao voto. Na segunda onda, o corpo da mulher ganha lugar de destaque, e tudo isso aconteceu durante um período de ditadura.

O Feminismo durante a Ditadura

“Essa segunda onda tá presa aos anos sessenta. (…) E as mulheres tinham aumentado o contingente feminino com mais educação. E isso tinha criado o que nós chamamos dessa segunda onda que não é mais a luta pelo direito ao voto, e agora era uma luta em que dizia “nosso corpo nos pertence”. O privado é político.”

Hildete Pereira de Melo

Hildete Pereira de Melo também relembra que tudo isso estava acontecendo durante a ditadura militar do Brasil, e uma frase ganhou atenção na época. As mulheres trouxeram a esfera do privado para o debate político com “O Pessoal é Político”, uma expressão que partiu da feminista Carol Hanisch, acentuando que o que acontece no âmbito pessoal também é de interesse do coletivo, do social, do político. A sociedade patriarcal confinou as mulheres na esfera doméstica, e a segunda onda do feminismo vem com a força das ondas do mar, empenhada em derrubar isso, embora ainda hoje tenhamos muito a avançar nesse sentido.

Helena Hirata militou na época da ditadura, entre 68 e 71.

“E nessa época as organizações políticas de esquerda não tinham nenhuma perspectiva feminista. Então nós não tínhamos mesmo nenhuma ideia de que deveríamos poder, enquanto mulheres, ter uma proposta própria.”

Mas como relembra Anna Marina Barbara Pinheiro:

“A ONU decreta o ano de 1975 como o ano internacional das mulheres. E aí as feministas que já estavam se articulando (…) descobrem que essa é uma boa oportunidade para vir a público, né? E aí organizam esse congresso pra articular publicamente as feministas que já tavam começando a se reunir pra ler bibliografia feminista importada da Europa, dos Estados Unidos.”

Assim, o feminismo da segunda onda no Brasil se propõe a aprender com o feminismo da Europa e dos Estados Unidos, um feminismo que relacionava as desigualdades de gênero com a cultura da sociedade.

Segunda Onda do Feminismo: contribuições para o Brasil

“Porque até então eu tinha certamente escutado essa frase “você não pode fazer isso porque você é menina” dezenas, centenas e milhões de vezes. E é claro que eu não escutei essa frase ah, da minha mãe, ah, do meu pai. Eu escutei do mundo. Né? (…) E aí eu fui pensando em como é que eu ia achar um jeito de fazer aquilo que eu queria mesmo sendo menina. E isso é uma forma de ser uma feminista.”

Carla Rodrigues

Apesar da afirmação de Carla Rodrigues, trilhar o caminho de uma feminista exige uma luta constante, especialmente em uma época em que o machismo era ainda mais acentuado em diversos setores, inclusive dentro dos próprios movimentos de esqueda.

“O pessoal é político” surge como uma síntese da proposta feminista, que critica a divisão entre o público e o privado, uma relação promovida e mantida pelo patriarcado. A mentira é desmascarada. Os movimentos feministas passam a discutir a ordem social que sustenta esse sistema que promove desigualdades com relação ao gênero, mas também com relação à classe, raça e etnia.

“Pra gente “o pessoal era político”, foi a grande descoberta da minha geração. E agora, pras meninas, o político é pessoal. Você faz da sua pessoa uma política. É uma demanda pessoal, a plataforma é o seu corpo, é a sua cara. (…) A escuta ampliou loucamente. Ecoa o feminismo de hoje em outras praças que não as nossas, das mulheres. E esse feminismo novo ele tem uma vitalidade e uma criatividade.”

A observação de Heloisa Buarque de Holanda mostra uma mudança na compreensão do feminismo a partir de duas épocas, mas é evidente que o feminismo da atualidade se fortalece em um cenário que vem de uma história de luta, travada por corajosas mulheres que desafiaram a ditadura militar brasileira.

Confira na íntegra o relato de Heloisa Buarque de Holanda, bem como de Carla Rodrigues, Schuma Schumaher, Hildete Pereira de Melo, Adélia Borges, Anna Marina Barbara Pinheiro, Liv Sovik, Fátima Setúbal e Helena Hirata no documentário “O pessoal é político” da Lascene Produções, que está disponível no Tamanduá TV, e conheça as histórias que aconteceram durante a segunda onda do feminismo no Brasil a partir da visão de mulheres que teceram essa história.

Trailer do documentário O Pessoal é Político: