O sagrado feminino na contemporaneidade

O Sagrado Feminino despertou. Ao menos o que estava reservado à esfera do privado tomou novo frescor e passou a reivindicar seu espaço na esfera pública.

Encontros, círculos de mulheres e trocas de experiências colocam novamente em evidência a importância da nossa conexão com a natureza e com a nossa ancestralidade.

Cada mulher ou grupo encontra suas próprias maneiras de vivenciar esse resgate. 

A percepção da influência dos ciclos internos em sintonia com os ciclos externos da natureza é uma das abordagens. Ambos são uma coisa só, como antes. Antes de servos apartados da nossa conexão com o sagrado.

O sagrado nesse contexto se revela em cada uma de nossas vivências. 

No âmbito das nossas vidas cotidianas, cada segundo passa despercebido em torno das inúmeras obrigações diárias. No Sagrado Feminino o espaço para a contemplação de outras perspectivas é novamente ampliado. Ele rompe o espaço que lhe fora confinado às religiões e se insere novamente em nosso dia a dia, como relata Banca Dias em “O Santo Inquérito” de Dias Gomes.

“O mais importante é que eu sinto a presença de Deus em todas as coisas que me dão prazer. No vento que me fustiga os cabelos, quando ando a cavalo. Na água do rio, que me acaricia o corpo, quando vou me banhar. No corpo de Augusto, quando roça no meu, como sem querer. Ou num bom prato de carne-seca, bem apimentado, com muita farofa, desses que fazem a gente chorar de gosto. Pois Deus está em tudo isso. E amar a Deus é amar as coisas que Ele fez para o nosso prazer.”

A sexualidade no Sagrado Feminino também encontra seu lugar de importância. A energia sexual é uma força vital que nos fora abafada com o conceito de pecado e a concepção de pudor da sociedade patriarcal. O fortalecimento da autoestima é apenas um dos resultados almejados em um processo de cura e de uma nova forma de se relacionar, embora ancestral.

O Sagrado Feminino é um resgate. Sendo assim, não podemos desconsiderar as influências históricas, para que estejamos atentas à nossa relação com o Sagrado Feminino nos dias de hoje.

Deusas que eram honradas no passado são nossos arquétipos contemporâneos. Compreender suas histórias é compreender nós mesmas em nossas mais variadas manifestações. Não somos apenas mães e esposas. Somos donzelas, amantes, anciãs. Também somos bruxas, amazonas, guerreiras, líderes. Em um quarto escondido do nosso inconsciente existem forças femininas que foram subjugadas. Elas estão ali, pedindo por cuidados.

Ao abraçá-las reconhecemos a nós mesmas e tomamos consciência dos padrões que nos foram impostos, a fim de nos libertarmos deles. 

O Sagrado Feminino é liberdade e elo. Liberdade de sermos quem somos em nossas mais variadas nuances e união com outras mulheres, bem como com nossos saberes ancestrais.