A tradição de pular fogueira

fogueira

A pesquisadora Luciana Chianca fala sobre o que significa a fogueira nas festas juninas.

Transcrição da entrevista:

Essa tradição de pular as fogueiras, brincar com esses jogos em torno da fogueira, circulando, pulando, de modo alternado, trocando de lado, brincando de formar compadres de fogueira, que é assim que nós chamamos, assim que nós intitulamos esse tipo especial de relação de compadrio, essas brincadeiras continuam existindo. 

Eu sou uma pessoa da cidade e tenho uma vivência muito grande no meio urbano, durante esse tempo todo que eu venho estudando São João, muitas vezes eu fui também confrontada com a festa junina da área rural. Nesses universos mais rurais, nas zonas menos urbanizadas do nosso Brasil, as fogueiras continuam sendo muito, muito feitas, continuam sendo muito celebradas. 

A principal marca é a de que vai ter festa junina, vai ter São João, ou que o dono da casa ele é, digamos assim, ele é afilhado de Santo Antônio, porque a gente, fazendo aqui um parênteses, essa festa junina, ela abarca Santo Antônio, São João e São Pedro, é um verdadeiro ciclo, como a gente chama nos estudos de festas, é um verdadeiro ciclo junino.

Ela começa em Santo Antônio e vai até São Pedro, tem muita coisa para falar em torno desse ciclo, mas vou me ater por enquanto a essa questão do comprador, afilhamento daqueles que são afilhados, protegidos pelo santo. 

Essa é a primeira forma de compadrio que é muito presente, continua sendo, não só nas zonas rurais onde você vê muitas fogueiras, no Estado da Paraíba, no Estado do Rio Grande do Norte, que são dois estados onde eu vivi muitos anos, eu verifiquei isso com meus próprios olhos, sou testemunha de que nas cidades, nos bairros mais urbanizados, os bairros mais centrais onde tem mais prédios.

A gente pode perceber que quando calçam-se as ruas das cidades, que vão se tornando cada vez mais urbanizadas, os próprios pilares que vão segurar as madeiras de uma fogueira, eles precisam ser fixados, que aquela fogueira não se esparrame, não se espalhe toda. 

Então essas estacas que são fixadas, vão ficar mais difícil de ser feitas, o próprio calor emanado pela fogueira também vai estragar muitas vezes o calçamento, de modo que mesmo assim você ainda observa em algumas cidades, nos bairros mais periféricos, nos bairros mais distantes uma presença boa, uma boa presença de fogueiras. 

Quanto mais os bairros são de casas, aí cabe ao dono da casa tomar a decisão, se ele for digamos assim protegido de Santo Antônio, ele vai fazer essa fogueira na véspera de Santo Antônio, se ele for protegido de São João, vai fazer na véspera de São João, se for protegido de São Pedro na véspera de São Pedro, então você sabe de quem a família é fiel quando você passa na porta da casa que você vê uma fogueira.

 “Olha aquele pessoal lá de Santo Antônio, aquele pessoal de São João, aquele pessoal de São Pedro”. O santo mais, vamos dizer assim, mais festejado, para quem mais se acende fogueira é São João, pode ser que isso nunca se acabe. São muito acesas muitas fogueiras nos períodos juninos. 

Agora é preciso que a gente se afaste um pouco dos bairros mais urbanizados e sobretudo dos prédios, porque nós sabemos que uma decisão de acender fogueira na frente de um prédio vai exigir que haja um consentimento de todos os moradores, de pelo menos da maioria, então são coisas mais difíceis de serem negociadas, em contextos urbanos, de coletividades mais extensas.

Mas em bairros periféricos, aqui no Nordeste pelo menos nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte, são muito frequentes as fogueiras, e aí as brincadeiras em torno da fogueira vem junto, porque o grande objetivo de construir a fogueira do lado de fora de casa é chamar, acolher para o seu núcleo familiar, vizinhos, familiares próximos, vizinhos mais próximos, amigos mais próximos.

Porque a brincadeira da fogueira na verdade ela é uma grande brincadeira de união, de congraçamento. A pessoa não acende a fogueira só para São João, ela acende, sobretudo, para os seus vizinhos, amigos e parentes, e aí a festa junina é um momento muito importante para pensar, para sentir a questão da fecundidade, a questão das uniões, a questão dos romances, não é, porque sabe-se que a gente vai procurar estimular uniões entre pessoas desconhecidas.

Então um bom vizinho, um bom amigo poderá sempre ser um bom candidato, uma boa candidata, então esse momento de São João ninguém pensa nisso, isso não é consciente, a gente chama os amigos porque gosta de estar com eles, mas vem junto essa possibilidade de que ali se efetuem alianças matrimoniais, alianças amorosas, afetivas do sentido amoroso das uniões. 

Esse momento é muito privilegiado, não é à toa que é esse momento de festa junina é um momento que eu gosto de lembrar a essas pessoas todas as danças do período junino são de par, ninguém dança no período junino sozinho, não existe esse negócio de fazer assim e ser feliz só se balançando. 

Você precisa de um par, não precisa ser do gênero oposto, mas você precisa de um par para dançar, quadrilha se dança de dois, forró se dança de dois, coco tem gestos todos de referência, erótica, sensual. Então assim, não é por acaso que período junino tudo acontece para que ocorram, se estimulem as alianças entre casais novos, casais que podem surgir.

Naturalmente onde há muita licença para que aconteça o romance, é preciso também que haja interdições, porque se todo mundo agir ao seu bel prazer, aí os homens não estarão mais numa sociedade, estarão de novo no estado de natureza, o que seria muito estimulante do ponto de vista da imaginação, mas do ponto de vista social, e lembramos que estamos numa sociedade, não estamos num estado de natureza. 

Do ponto de vista social não é possível, então que voltemos a um estado de natureza onde todas as uniões aconteceriam de modo livre, espontâneo, liberado, onde há a liberação, há também restrição, a tabus e os compadrios de fogueira, aí o retorno à sua pergunta, os compadres de fogueira, eles surgem justamente para lançar as interdições entre as pessoas.

Então se você é meu compadre, é minha comadre, nós somos irmãos, são vínculos, os vínculos de compadrio são vínculos onde você traz para dentro da sua família de sangue, parentes que não são de sangue. Então se você é minha comadre, o seu marido, ou a sua companheira, a sua mulher não vai ser mais uma pessoa acessível para mim, porque nós temos um vínculo que nos une como irmã.

Essa pessoa vai se tornar um cunhado para mim, em vez de ser um perfeito estranho, ele vai ser um cunhado, se você for comadre, ou compadre de fogueira de alguém, essa pessoa vai se tornar o seu irmão, então instantaneamente os vínculos possíveis de romance ou de licença sexual que pudesse existir, eles são cortados, lança-se sobre essa união um tabu, reforça o vínculo entre os dois compadres, o vínculo fraterno, ou a sonoridade entre as mulheres que estão ali unidas nesse vínculo.

No entanto, cria-se também a interdição de uma relação que possa acontecer, porque a gente sabe que os compadres não podem se unir entre si, porque são irmãos e irmãos também não se unem é carnalmente, por assim dizer. É por isso que existem as histórias do boitatá, porque o boitatá, essa personagem é muito conhecida no folclore brasileiro, é o padre que desrespeitou o tabu do compadrio, porque o padre ele também é um pai, ele o padre, o nome padre quer dizer pai. 

O padre de uma paróquia, o padre de um conjunto de fiéis, ele é um pai dos fiéis, ele não pode ter relações sexuais, carnais, com ninguém da sua paroquia, porque ele é o pai, o seu pai não tem relações com os filhos, o tabu não permite, então o padre que tem relação com uma das suas mulheres, ou dos seus fiéis seja qual for, ele é punido, se tornando o boitatá, mula sem cabeça, boitatá. 

Esse exemplo do folclore tá aí também para lembrar as pessoas que quem descumpre as regras do compadrio, é punido e se torna uma aberração da natureza, assim como pode e também se torna por analogia com a aberração sexual.