Setembro amarelo

Como combater o suicídio entre as mulheres?

Ela acorda cedo, leva os dois filhos na creche e vai para o emprego. Ela sai do trabalho, busca as crianças e volta para casa rumo a mais uma jornada de trabalho. Ela dá banho nos filhos, faz o jantar e o serve pontualmente às 19:45h. Ela, que às vezes não encontra o marido em casa, mas deixa seu prato no forno. Ela, que tem duas irmãs que também são mães, recebe delas o apoio que às vezes precisa. Ela vê os filhos se divertirem com os primos quando passa um tempo com a família. Ela, que se sente presa à essa rotina, pensa:

“Pelo menos, se eu partir, meus filhos têm com quem ficar”.

“Se eu partir”. Essa frase ecoa em sua cabeça. 

“Minha vida não é nada do que eu tinha projetado para mim. Cada dia que passa eu percebo que minha vida não tem sentido: meu chefe não me valoriza, meus filhos preferem as tias, meu marido deixa tudo nas minhas costas. Eu sei que eu não sou feliz, mas isso também não significa que eu não queira viver…”

Ela se sente culpada pelo que acabou de pensar. Ela, que tenta esquecer esse último pensamento, fracassa.

Meses depois o “se eu partir” se torna “quando eu partir”. Vez por outra verbaliza o pensamento que, agora, já não lhe parece tão terrível assim. Ela, que não é ouvida. Ela, que é desacreditada, já se acostumou a ouvir “vire essa boca pra lá”, “não fala besteira”, “você reclama de barriga cheia”.

Mesmo com alguns sinais, até hoje, ninguém sabe exatamente o que a motivou a fazer o que fez.

Quando falamos em suicídio muitas dúvidas surgem e parte delas não são respondidas. Um dos motivos é se tratar de um tema complexo, afinal, o suicídio está ligado à diversas causas. Esses aspectos poderiam ser divididos em “internos” como fatores genéticos, hormonais, doenças e transtornos mentais, por exemplo; e “externos”, como fatores sociais, políticos, econômicos, religiosos e culturais. 

Mesmo os transtornos e doenças mentais que afetam um indivíduo são agravados pelos fatores ambientais externos, variando em decorrência da experiência de cada pessoa.

O segundo fator a se considerar é o “tabu” que ainda existe ao abordarmos esse tema.

Compreender melhor as causas diversos que contribuem para os casos de suicídio e abordarmos esse assunto com o objetivo de romper esse tabu é urgente. O crescimento no número dessas ocorrências corroboram com isso.

A OMS revela que cerca de 800 mil pessoas são vítimas de suicidio por ano. O aumento de suicídios foi de 60% nos últimos 50 anos. 

No ranking de países com maior incidência, o Brasil ocupa o 8 lugar.

É importante salientarmos que 2011 foi o último ano das notificações não obrigatórias no serviço de saúde. Depois dessa data, houve um já esperado aumento de registros, o que contribuiu para informações mais próximas à realidade.

Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, entre 2000 e 2017 o suicídio entre as mulheres teve um aumento de 92%.  Embora a taxa de suicídio seja maior entre os homens, é importante entendermos como esse problema afeta grupos específicos com idosos, criancas, além de considerarmos as caracteristicas relativas à gênero, etnia e localizacão geográfica.

Os esforços dos órgãos de saúde contribuem para que possamos tratar o suicídio como um problema de saúde pública, algo que muitas pessoas ainda consideram como um caso de tragédia pessoal.

Alterar esse paradigma contribui para que tenhamos maior abrangência quando se trata de alertar a sociedade para as causas e comportamentos possíveis de se identificar, a fim de diminuirmos essas estatísticas.

Nesse artigo vamos abordar um pouco sobre assunto, especialmente com relacão aos atentados contra a própria vida cometidos pelas mulheres.

A narrativa da personagem “Ela” do início do texto é um exemplo de relato que permite afinar nosso olhar, para que possamos ajudar as pessoas mais próximas. Mas, como esses problemas e devaneios são comuns a muitas de nós, surge a dúvida: Como identificar que uma determinada fala reflete uma real possibilidade de tentativa de suicídio, ou não?

Talvez não consigamos responder precisamente a essa pergunta, mas buscar a resposta pode nos ajudar a identificar as melhores ações, ou pelo menos, evitar atitudes que possam agravar essas situações.

Suicídio, Problema de Saúde Pública

Diversos problemas sociais agravam as ocorrências de suicídio. As crises econômicas, por exemplo, são algumas delas, sendo os homens as principais vítimas nesses casos. Muitos perdem suas rendas e não conseguem sustentar suas famílias. Como eles se sentem responsáveis e não querem ser um fardo, acabam tirando suas vidas.

Essas vítimas, geralmente, também possuem um histórico de transtorno ou doença mental. 

Entre as mulheres, a violência doméstica é um dos fatores sociais mais agravantes. De acordo com a psicóloga e mestre em ciências da medicina e sociologia do abuso de drogas, Márcia Yoko, mesmo com os esforços da legislação, as medidas protetivas não resolvem tanto na prática. 

“Tudo que a mulher tem quando denuncia um abuso é um papel, e isso na prática não resolve muita coisa. Muitas têm medo de retaliação após acionar a medida protetiva. Ou seja, o processo é burocrático, não ajuda tanto, já que oferece apenas um papel como defesa da mulher, além do medo que muitas têm de provocar a raiva do ex parceiro e acabar sendo perseguidas.”

Após sofrerem abusos, muitas mulheres já começam a apresentar transtornos mentais. Algumas delas podem estar sendo medicadas com anti depressivos e esses remédios em superdosagem podem levar à morte. 

O Ministério da Saúde relata que as mulheres cometem mais atentados contra a própria vida, embora os homens sejam as vítimas mais fatais. Entre os fatores para essas diferenças estão os métodos realizados, bem como o tamanho do corpo e a letalidade, conforme salienta Márcia Yoko.

“Os métodos entre os homens incluem queda por enforcamento, por exemplo, e entre as mulheres, a automutilação e o uso de remédios. Os homens, em geral, quando utilizam remédios acabam misturando com álcool, o que acaba agravando o quadro clínico quando recebem atendimento de emergência.”

De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2011 e 2016 os casos de automutilação do corpo cresceram 204% sendo 27,4% deles ocorridos como tentativas de suicídio. A maior parte desses atos foram cometidos por mulheres, já que entre os 45.468 casos de 2016, 30.013 foram realizados por “elas”.

Entre as causas de morte ocorridas no Brasil na faixa etária de 15 a 24 anos, o suicídio ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para acidentes de carro.

A influência da sociedade no que se refere às questões do corpo feminino, bem como o poder das redes sociais, intensificam os problemas enfrentados pelas mulheres mais jovens.

Ainda é preciso mais estudos sobre a relação entre violência doméstica e atendados de mulheres contra a própria vida, mas alguns dados estatísticos já salientam isso.

Uma pesquisa realizada na Suécia constatou que 53% dos casos de comportamento suicida entre as mulheres estavam relacionados à violência doméstica (DUFORT, STENBACKA, GUMPERT, 2015). Em uma pesquisa americana, 86% das mulheres gestantes, entre 16 e 28 anos que se submeteram à pesquisa, associaram a ideação suicida com os abusos sofridos em casa (ALHUSEN, FROHMAN, PURCELL, 2015).

No Brasil não é diferente. A ABP, Associação Brasileira de Psiquiatria, reforça que 96,8% dos casos de suicidio têm relação com transtornos mentais. A pergunta é: “Quais os fatores que levam à esses transtornos mentais?”

Até o final do século passado, as causas dos transtornos mentais estavam mais relacionadas à fatores genéticos. No entanto, estudos mais recentes, reforçam as influências dos fatores sócio ambientais na ocorrência dessas doenças. 

É, portanto, necessária uma abordagem ampla, que inclua os elementos relativos a esses dois fatores.

Embora afetem ambos, os Transtornos Mentais Comuns são, em maior ocorrência, nas mulheres, incluindo transtornos de humor e ansiedade. A depressão também tem sido apontada em diversos estudos como uma doença psiquiátrica crônica com maior ocorrência em mulheres.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM-5, incluiu em sua lista o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual, ou TDPM, e a Síndrome Pré Menstrual, ou SPM, também conhecida como TPM. A partir desse momento, a Saúde passa a encará-los como doenças.

A TDPM é uma forma mais grave de TPM e acomete cerca de 3% a 8% das mulheres em idade reprodutiva. A SPM ocorre entre 75% a 80%. As variações hormonais em mulheres podem provocar desde ansiedade, alteração de humor e irritabilidade, até depreciação da auto imagem e depressão.

Quanto ao aspecto social na vida das mulheres, não podemos ignorar as jornadas duplas de trabalho envolvendo emprego, casa e família; as pressões sociais com relação ao corpo feminino; além das altas taxas de violência doméstica que afligem as mulheres.

Condições socioeconômicas e de estilo de vida são outros fatores que devem ser considerados nessa análise.

Suicídio entre as mulheres, como combater?

O principal ponto a favor da mulher é que, em geral, elas buscam mais ajuda do que os homens. As mulheres tendem a falar mais sobre seus problemas, e isso é bom. O problema é que muitas vezes elas são descredibilizadas.

Vamos voltar à personagem.

Meses depois o “Se eu partir” se torna “Quando eu partir”. Vez por outra verbaliza o pensamento que agora já não lhe parece tão terrível assim. Ela que não é ouvida, ela que é desacreditada, já se acostumou a ouvir “vire essa boca pra lá”, “não fala besteira”, “você reclama de barriga cheia”.

A sociedade ainda faz piadas com relação à TPM. Os vizinhos e pessoas próximas fazem vista grossa para os casos de abuso e violência cometidos contra a mulher. As mulheres que buscam ajuda tomam a atitude correta, mas nem sempre recebem o apoio que deveriam receber da sociedade. 

Quando ocorre o suicídio a família se pergunta: “Por que ela não disse nada?”. 

Mas ela disse. O problema é que essas falas são ditas muitas vezes de forma banal em nosso dia a dia. Então, como saber que o que havia sido dito era sério?

Um bom começo é mudar o olhar sobre a mulher e sobre os problemas enfrentados por nós no dia a dia.

“Falar”, como reforça Márcia Yoko, é de extrema importância. Quem se cala tem maiores chances de cometer atos impulsivos, porque não foi experimentado o espaço de tentar resolver. Além do que, falar contribui para a organização dos pensamentos e ideias.

Mas quem fala quer ser ouvido, e quando a resposta é: “você reclama de barriga cheia”, os resultados tendem a não ser positivos. Quem sofre e decide falar já conseguiu vencer uma barreira, a da dificuldade de se expressar quando se está sofrendo. Quando a resposta vem como uma crítica e julgamento, a pessoa que está sofrendo, acaba se sentindo além de tudo culpada pelo que pensou e disse. 

Nesse aspecto, Márcia Yoko reforça a importância das Redes de Apoio que auxiliam as mulheres a superarem suas dores, e como a ausência desse apoio agrava ainda mais o problema.

“Elas querem acabar com o sofrimento. Mas quando estão imersas em seus sentimentos, acaba sendo difícil separar a consciência de tudo que elas estão sentindo.  Elas querem eliminar a dor e, para parar de sofrer, chega um momento em que elas não encontram outra solução.”

Uma a cada três mulheres já foram ou serão vítimas de violência de gênero no mundo. Segundo o VIVA Inquérito 2014, entre os dados coletados nos casos de violência doméstica, 69,9% eram do sexo feminino. Entre essas mulheres, 50,4% não exerciam atividades remuneradas. Essa violência, além da física e sexual, também inclui os abusos emocionais, que acabam ocorrendo durante um bom tempo até que alguma ação seja tomada.

Prevenção do suicídio entre as mulheres

Como percebemos, além do fator da expressividade verbal na mulher contribuir para a reducão de tentativas de suicídio, bem como as Redes de Apoio, o outro fator é a maternidade, desde que a mãe não tenha tido depressão pós parto.

As mães pensam nos filhos antes de atentar contra a própria vida, e isso também reduz as tentativas impulsivas.

Mas e a pessoa que pode estar próxima de uma mulher com ideação suicida, como ela deve agir?

“Muitas pessoas acham que a mulher que sofre violência doméstica e continua na relação faz isso porque gosta. Elas estão em uma relação de dependência emocional e com a auto estima fragilizada. Isso se agrava quando elas são hostilizadas pelas amigas e muitas vezes nas próprias delegacias. Elas acabam ficando sem saída.”, salienta Márcia Yoko.

Transformar esse olhar das pessoas próximas é essencial para que as vítimas se sintam acolhidas. Indicar Redes de Apoio também pode ajudar bastante. 

Quem convive com uma pessoa que já atentou contra a própria vida também deve ter atenção a outros detalhes. O fato de as mulheres tentarem mais, suscita o problema da recorrência. Uma tentativa que não deu certo tem 80% mais chance de ser repetida na mesma semana.

Então, além de não deixar instrumentos cortantes e remédios perto da vítima, é importante refletir sobre a sua forma de comunicar. O mais importante é oferecer apoio e ouvir. Substituir a crítica pela escuta.