Tereza de Benguela

A trajetória da escravidão no Brasil possui fortes laços com uma Rainha que revolucionou seu tempo. Essa figura se tornou um símbolo nacional feminino de resistência negra enquanto a escravidão imperava sobre esse povo. Ela driblou as ideologias comerciais e políticas ao liderar um Quilombo, estabelecendo as próprias diretrizes de lei e lutou contra seus opositores em prol do propósito de liberdade, resistindo até o seu último combate. Seu nome é Tereza de Benguela, a heroína que liderou o Quariterê.

A origem de seu nascimento é incerta, registros portugueses da época apontam para uma possível nacionalidade africana de Angola, embarcada no porto de Benguela. Alguns historiadores discordam desses dados, acreditando possivelmente ter nascido no Brasil, não havendo data aproximada de seu nascimento. Apesar do apagamento do início de sua trajetória, sua existência foi pontual para a história do país! A importância dessa líder se entende no protagonismo de resistência contra a violência e a sua colaboração para a abolição da escravatura.

No século XVII, a América não era mais unificada. Para além das margens do império dominado pelo rei João I de Portugal, se encontravam as terras que eram dominadas por outra Rainha, Tereza de Benguela. Ela liderava o Quilombo do Quariterê, na região do Vale do Guaporé, na Vila Bela da Santíssima Trindade, hoje conhecido como Mato Grosso, fazendo divisa com a Bolívia. Por volta de 1752 a 1820, Vila Bela foi referência política e sua força econômica colaborou para a preservação e expansão dos territórios da fronteira.

A origem de Quariterê antevê a participação de Tereza. Fundado na década de 1740 por José Piolho, que posteriormente se tornaria seu marido, o Quilombo possuía uma mecânica interna semelhante aos demais centros de resistência de negros fugitivos da escravidão. Ainda com estruturas precárias, o Quariterê se desenvolveu econômica e militarmente, causando desconforto no governo escravocrata que fazia investidas contra o Quilombo por duas décadas.

A região com fronteiras espanholas era refúgio para escravos, uma estratégia que dificultou as forças portuguesas em apanhar negros fugitivos desse sistema violento. Após uma década da gestão de José Piolho, em 1750 veio a falecer por causas desconhecidas. Aqui, então, começa a liderança de Tereza, que assume um comando até 1770. A nova monarca trouxe mudanças significativas no regime da comunidade. Apesar da estrutura democrática participar das dinâmicas do quilombo, havia paralelamente punições brutais para os desertores. O objetivo era manter a salvo o quilombo que já lutava contra a resistência portuguesa, relata a doutora em antropologia e especialista em populações indígenas e quilombolas Edir Pina de Barros, no artigo Quilombos: Resistência Negra em Mato Grosso.

Apesar dos intensos esforços dos habitantes da comunidade Quariterê, as forças em combates com portugueses eram desniveladas, já que a disciplina militar era infrutífera sem armas. A estratégia do grupo era fazer emboscadas para roubar armas de viajantes. As abordagens não eram sempre violentas, faziam trocas de produtos confeccionados na comunidade por espadas e espingardas (mosquetes) com a população branca da região. Parte das missões eram chefiadas por Tereza, que faziam transações comerciais com os excedentes que produziam no quilombo por pedras de valor e ouro, com o objetivo de maior aquisição de armas.

Tereza tinha visão estratégica e disciplinada. Em seu regime, a comunidade produziu alimentos que anteriormente não eram cultivados, como milho e mandioca; além da complementação pela pesca e caça, havia produção de artigos variados, como o fumo e o algodão; que era matéria prima para confecção de tecidos e roupas.

“Tecidos eram uma importante moeda de troca por armas. Havia, ainda, duas tendas de ferreiro. Através de relações mantidas com a sociedade ‘branca’, obtinham ferro, além de sal e outros artigos”, afirma Pina, somando mais de 200 pessoas no quilombo do Quariterê.

Seu comando se entendeu por quase 20 anos, graças a sua dinâmica parlamentar que garantiu a sobrevivência de negros e indígenas que formavam o quilombo. Segundo os anais de vila Bela da Santíssima Trindade:
Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados, sendo o de maior autoridade, tido por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais. Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo.
“Os quilombos são entendidos erroneamente como espaços sociais isolados”, afirma Farias Junior. Em outro artigo produzido por Edir Pina, se pode compreender que o Quilombo de Quariterê se tornou próspero, em contraste com a carência de recursos que afetava Vila Bela e as minas de Mato Grosso: “Tal abundância relacionava-se à forma de apropriação da terra (pelo trabalho), disponibilidade de mão de obra e, sobretudo, trabalho cooperativo e solidariedade social”.
“Isso se deve, em grande parte, à legislação colonial. O Conselho Ultramarino dizia que o quilombo tinha um número mínimo de pessoas, estava isolado e com economia de subsistência, mas se verifica que os quilombos participavam de diferentes maneiras da economia regional.”
O quilombo da rainha se tornou um alvo dos portugueses, porque acabou se tornando uma referência para os demais quilombos que se formavam cada vez que as fugas dos negros aumentavam. Isso, é claro, preocupava a administração de Vila Bela, que mantinha a escravidão como estratégia econômica. Então, em 22 de julho de 1770, um grupo montado foi em direção ao quilombo. Após 5 dias de viagem, chegaram a Quariterê abrindo fogo, mas a maioria dos quilombolas conseguiu escapar. A fuga para o território espanhol dificultou a recaptura e posteriormente a aplicação de punições.
Os remanescentes tentaram empunhar as armas que tinham, como mosquetes e arcos e flechas indígenas. Foi o ataque mais violento da comunidade, em que houve um total de 79 negros e 30 indígenas levados para Vila Bela. Como forma de punição, foram marcados com um F de “Fujão”, sendo posteriormente devolvidos a todos os senhores que insistiam em dizer que eram seus donos.
Tereza também havia sido capturada e não esperava um fim tão cruel, relatado em documentos coloniais: foi posta em uma prisão, onde todos os quilombolas pudessem a ver – eles acabaram se revoltando contra ela, proferindo palavras injuriosas. Tereza foi silenciada e passou seus breves dias em profunda dor, vindo a ser acometida de pasmo e não resistindo. A crueldade de seus inimigos era tamanha que, após a morte, seu corpo foi esquartejado. Colocaram a cabeça no meio da praça do quilombo como memória da dominação monstruosa portuguesa.
Apesar desse ataque, o fim do quilombo do Quariterê ainda não havia chegado, pois os demais quilombolas resistiram à encruzilhada e se reorganizaram dentro da mata, conseguindo reerguer a comunidade. Após a junção dos esforços de todos para manter suas próprias vidas, em 1795 eles sofreram outro duro ataque, apoiados por um negro alforriado que colaborou para que o quilombo não se levantasse outra vez.
Tereza de Benguela, a rainha do quilombo Quariterê, foi imortalizada como ícone de resistência negra contra opressores escravocratas coloniais. Em homenagem a ela, no Brasil, em 25 de julho é comemorado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, oficialmente instituída pela Lei n° 12.987/2014.
A intolerância racial é precursora de diversas violências até os dias atuais, contrastando traços coloniais nas estruturas da sociedade do século XXI, fundamentada no capitalismo como engrenagem social. O racismo estrutural é um sistema de dominação, segregação e punição, amparado no conceito de raça da população negra.
Essa estrutura faz possível que a organização do país ainda privilegie pessoas brancas, que ainda representam o percentual de maior aquisição econômica no mundo; em detrimento de pessoas negras que são empurrados para a marginalidade em total desacordo com os direitos e deveres que são comuns, dificultando moradia digna, acesso à educação, autonomia econômica, segurança etc.
A luta pela igualdade tem como foco a desestruturação desses pilares que ainda sustentam e estimulam cada vez mais o abismo que há entre raças, organizado politicamente para que a branquitude seja protagonista de maiores privilégios, parte deles, não somente de modo passivo; mas atuando também na supressão de direitos como manobra de enfraquecimento e restrição; para que a população marginalizada tenha cada vez menos recursos que a façam revidar contra essas estruturas de poder.
A história do país carrega desde a descoberta das terras brasileiras por povos estrangeiros, por volta de 500 anos atrás, a dinâmica de dominação da raça negra e indígena pela branca, como viés de extermínio e aquisição territorial, destruição e ocupação. Não havendo dados históricos que contradizem que a violência desenvolvida desde os primeiros tempos tenha maiores justificativas que a de manipulação dos recursos a favor da raça dominante, a saber, a branquitude; em objetivo a destruição da raça negra. É compreendido, portanto, que o racismo estrutural é indício cabal da organização social em que o Brasil ainda mantém seus fundamentos para diminuição, extermínio e violação da população negra.