Teresa Trautman, a mulher no cinema durante a ditadura

“Eu perdi de não ter conseguido fazer os filmes que eu gostaria de ter feito, e muitos filmes que eu gostaria de ter feito, deixei de fazer. E acho que teriam havido outras cineastas, teriam havido outras artistas, outras pessoas que teriam dado continuidade a essa conversa primeira que eu lancei com “Os homens que eu tive”. (…) Os críticos achavam, quando o filme foi lançado, que eu era uma senhora. Aí quando me conheciam achavam que o meu companheiro estava me explorando (risos). Então você imagina. Quer dizer, olha quanta coisa que você podia discutir!”

Teresa Trautman ao documentário “O Cinema das Mulheres”

A cineasta Teresa Trautman tinha 20 anos de idade na época em que lançou “Os homens que eu tive”, em 1971, em plena ditadura militar no Brasil. Em entrevista para o documentário “O Cinema das Mulheres” da Lascene em parceria com o Mulheres de Luta, Teresa comenta com humor sobre as percepções que as pessoas tinham sobre ela ao assistirem seu filme mais polêmico, ressaltando o quando ainda se tinha a discutir sobre a mulher na sociedade.

Ao mesmo tempo, ela traça um panorama do que foram aqueles tempos, e como isso impactou na produção cinematográfica nacional, inclusive quanto às abordagens sobre o tema. Mesmo em meio às dificuldades, as contribuições de Trautman ao cinema nacional inspiraram toda uma geração de diretoras. 

Conheça um pouco mais sobre a trajetória de Teresa Trautman e confira um pouco do que ela compartilhou em “O Cinema das Mulheres”.

A trajetória de Teresa Trautman no cinema

A cineasta Teresa Trautman nasceu em São Paulo no dia 11 de fevereiro de 1951, filha mais velha de uma família com poucos recursos. Aos cinco anos de idade, encantou-se pelo cinema ao assistir Branca de Neve, o primeiro filme que penetrou em seu imaginário. Desde então, passou a usar a criatividade para escrever cenas a partir de imagens de revistas, e convidar pessoas para interpretarem suas personagens.

Começou a trabalhar aos 15 anos, mas dedicava sua hora de almoço à escrever histórias. Aos 17 anos, enquanto Teresa era aluna do curso de Aplicação da USP, também frequentava o cineclube em um cinema próximo ao colégio. Aos sábados, às dez horas da manhã, ocorriam as sessões que exibiam filmes como Vidas Secas, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, além de filmes estrangeiros que influenciaram a formação de Trautman. Teresa continuava escrevendo, fazia cursos de fotografia e de direção teatral, além de ter lido todos os livros sobre cinema que haviam na época. 

Determinada a seguir carreira como cineasta, Teresa Trautman planejava cursar cinema na UNB, mas o plano já não era possível diante do que estava ocorrendo no país na época. A Universidade de Brasília sofreu quatro invasões durante a ditadura militar, em 1964, 1965, 1968 e 1977. Em 68, o ataque resultou na prisão de sessenta pessoas e na morte do estudante Waldemar Alves, que foi baleado na cabeça. Ainda em 68 foi decretado o AI-5, o mais duro de todos os atos institucionais emitidos durante o regime. Na escola de Aplicação da USP, Trautman convivia com  os impactos da ditadura. Professores tinham sumido, amigos, artistas e pessoas próximas estavam sendo  perseguidas, torturadas e censuradas. Ao mesmo tempo, havia uma intensa efervescência artística no cenário paulistano e a mudança de planos de Teresa quanto ao curso da UNB  não a impediu de seguir seu objetivo de fazer cinema.

Aos 19 anos, enquanto estava de licença maternidade, Trautman rodou seu primeiro filme. O ambiente instaurado pela ditadura com um clima de perseguição e sensação de desconfiança e paranóia aparece em “Fantasticon – Os Deuses do Sexo”, de 1970. O longa era composto por três curtas, entre eles, “A Curtição”, que foi roteirizado, dirigido e editado por Trautman. Na obra, Teresa explorava a relação dos jovens com as drogas como mecanismo de fuga de uma realidade difícil de encarar, acentuando toques de fantasia e ficção científica. O filme foi interditado pela ditadura, o que de certa forma surpreendeu a cineasta. 

Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, em 1971, Tereza Trautman encontrou-se em outro cenário. Em São Paulo a ditadura parecia ser muito mais presente do que no cotidiano dos cariocas. A capital paulista trazia o cinema marginal que dialogava com os movimentos da contracultura. No Rio de Janeiro, havia o Cinema Novo, um movimento de referência para Teresa que mergulhou de cabeça no cinema.

Teresa não tinha a intenção de fazer um filme que abordasse algo que pudesse ser censurado. A cineasta pretendia realizar uma obra que fosse uma crítica de costumes, e para isso decidiu fazer uma  brincadeira: inverter os papéis de gênero dos comportamentos padrões da sociedade. Se sempre são os homens que falam sobre as mulheres, dessa vez, a mulher falaria sobre os homens. Inspirada por essa ideia, aos 20 anos de idade, Teresa escreve o roteiro de “Os Homens que eu Tive”, que acabou tendo uma repercussão além da esperada para ela.

“Os homens que eu tive”, ou “Os homens e eu”?

Quando Teresa apresentou o roteiro do filme para o produtor, ele logo aderiu à ideia. A princípio, estava tudo certo para Leila Diniz protagonizar a obra, mas um acidente de avião a levou tardiamente. Trautman decide então por Darlene Glória para dar vida ao papel de Pity, uma mulher casada que tem um relacionamento aberto com o marido. O filme explora as vontades e os desejos dessa mulher.

Logo na primeira sessão do filme apresentado no Cine Roxy no Rio de Janeiro, Trautman pode perceber o impacto causado nas pessoas. 

“ As pessoas saíram do cinema numa euforia, então a primeira coisa que eu vi foram as pessoas numa alegria, me agradecendo, me enchendo de beijinhos, falando “Que maravilha!” e o filme foi interditado em Belo Horizonte graças a uma viúva que se dirigiu ao diretor geral da Polícia Federal.”

A interdição foi uma surpresa para a cineasta, bem como a repercussão que o filme teve para o movimento feminista, não por que a cinesta não apoiasse o movimento, muito pelo contrário. Desde a infância, a influência de mulheres fortes dentro de casa foi natural para a Trautman, então, foi especialmente partir da repercussão do filme que ela percebeu o quão forte era discriminação contra a mulher.

Com “Os homens que eu tive”, Trautman tornou-se a primeira diretora de cinema a filmar a partir de um ponto de vista estritamente feminino, abordando a liberação do corpo da mulher. 

Em um primeiro momento, os censores da ditadura classificaram o filme como “película com conteúdo amoral, baseado no adultério”, e o liberou apenas para maiores de 18 anos e com alguns cortes. Após ficar seis semanas em cartaz com plateia cheia e recebendo excelentes críticas, o filme sofreu interdição total. Ele só foi liberado novamente na década de 1980 com o título “Os Homens e Eu”. 

Em um outro ambiente…

Ao longo de sua carreira, Trautman conseguiu produzir apenas cinco filmes, o que pode ser considerado pouco para uma produção biográfica, mas uma verdadeira proeza para quem estava em pleno processo criativo durante o regime ditatorial.

Em 1975, dirigiu o episódio “As Deliciosas Traições do Amor” do longa “Dois é bom, quatro é melhor” e em 1977 o curta-metragem “O caso Ruschi”.

O último filme da diretora, “Sonhos de menina moça” de 1987, recebeu mais de 20 convites para participar de festivais internacionais. O filme narra as últimas horas de uma família aristocrata em sua casa. A obra também foi indicada ao Kikito no Festival de Gramado de 1988 como Melhor Filme e rendeu o Troféu APCA de 1990 à Louise Cardoso como Melhor Atriz Coadjuvante.

O próximo passo da carreira de Trautman foi dedicar-se a distribuir filmes de cinema brasileiro para a televisão. Teresa foi pioneira ao lançar DVD ‘s de filmes brasileiros, não apenas atuais, mas também filmes recuperados e restaurados. Também foi a primeira a colocar filmes em pay-per-view na Net, na Sky e na DirecTV. 

Hoje, à frente do Cine Brasil TV, canal fundado em 2004, a cineasta estimula as pessoas a fazerem filmes, especialmente com temas que abordam questões sociais. O CINE BRASIL TV é um canal por assinatura que se dedica à produção e à divulgação de filmes e séries que promovam a diversidade cultural do Brasil.

Trautman acredita na importância do olhar feminino,  e que ele ainda faz falta no cinema brasileiro.

“A vida é take único, porque ou você assume o poder dos seus sonhos e desejos, ou eles vão ficar órfãos e quando você assume é um pouquinho mais difícil você ter o domínio. Você tem na medida do possível, mas você não controla tudo. É impossível controlar e é muito bom que você não controle porque é aí que as coisas acontecem efetivamente e te carregam.”